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Em gravação feita por dono da JBS, 'Temer dá aval a compra de silêncio de Cunha', diz jornal; presidente nega
Os donos da gigante J&F, conglomerado de alimentos que inclui a JBS, Joesley e Wesley Batista, fizeram uma delação no âmbido da operação Lava Jato que implica diretamente o presidente Michel Temer, segundo reportagem publicada no site do jornal O Globo na noite desta quarta-feira.
Segundo o texto, os irmãos e outras cinco pessoas contaram à Procuradoria-Geral da República que Temer foi gravado dando o aval para compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha, que está preso em Curitiba (PR).
Até o momento, não há confirmação oficial da Procuradoria. Em nota enviada à imprensa, o Palácio do Planalto disse que o presidente Michel Temer "jamais solicitou pagamento para obter o silêncio" de Cunha (leia texto integral ao fim desta reportagem).
De acordo com o jornal, na gravação, o presidente ouviu de Joesley que o empresário estaria dando dinheiro para que Cunha e o operador Lúcio Funaro ficassem calados na prisão. Temer, então, teria respondido: "tem que manter mesmo, viu?"
Joesley, acrescenta O Globo, disse que teria pago R$ 5 milhões a Cunha após sua prisão, montante referente a propinas ainda por receber. O empresário teria afirmado também que devia R$ 20 milhões pela tramitação da lei que desonerava o setor do frango.
Além disso, Temer teria indicado o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver um assunto da J&F. Depois, o mesmo parlamentar teria sido gravado recebendo uma mala com R$ 500 mil enviados por Joesley.
Após a reportagem ser publicada, o deputado federal Alessandro Molon (Rede-RJ) protocolou um pedido de impeachment baseado na suposta gravação.
"Isso fere direta e claramente a lei dos crimes de responsabilidade, que diz que ter comportamento incompatível com decoro do cargo é causa para cassação do mandato", afirmou Molon a jornalistas.
As sessões na Câmara e no Senado foram encerradas.
Outros citados
O jornal também afirmou que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) teria sido gravado pedindo R$ 2 milhões ao empresário da JBS. O valor teria sido entregue a um primo de Aécio, em momento gravado pela Polícia Federal.
O dinheiro, que teria sido rastreado pela PF, teria sido depositado em conta de empresa do senador Zezé Perrela (PSDB-MG).
Outro citado na delação da JBS, segundo o jornal, seria o ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma Rousseff Guido Mantega.
Ele seria o contato de Joesley no PT, com quem o dinheiro de propina seria negociado para depois ser distribuído entre membros do partido e aliados. Mantega também representaria o contato da empresa no BNDES, banco de fomento ao setor produtivo.
Desses citados, apenas Aécio se manifestou até a publicação deste texto.
Segundo nota divulgada por sua assessoria, o senador está "absolutamente tranquilo quanto à correção de todos os seus atos".
"No que se refere à relação com o senhor Joesley Batista, ela era estritamente pessoal, sem qualquer envolvimento com o setor público. O senador aguarda ter acesso ao conjunto das informações para prestar todos os esclarecimentos necessários", diz o comunicado.
Ação inédita
Se comprovada a delação, seria a primeira vez na história da operação Lava Jato que haveria obtenções de provas em flagrante, com a ação da polícia adiada para o momento mais oportuno da investigação.
O Globo informou que os diálogos e as entregas de malas com dinheiro foram filmadas pela polícia. Além disso, as malas estavam com chips para que o caminho do dinheiro pudesse ser rastreado.
A delação da gigante dos alimentos teria sido fechada em tempo recorde, se comparada com a das empreiteiras Odebrecht e OAS. As conversas teriam começado em março e os depoimentos, realizados de abril a maio.
As conversas com Temer e Aécio teriam sido gravadas pelo próprio Joesley. De acordo com O Globo, em dois momentos em março, o dono da JBS falou com o presidente e o senador do PSDB levando um gravador escondido.
Para evitar vazamentos, segundo o jornal, Joesley entraria na garagem da sede da Procuradoria dirigindo o próprio carro e subiria para a sala de depoimentos sem ser identificado.
Leia nota do Palácio do Planalto na íntegra
"O presidente Michel Temer jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Não participou e nem autorizou qualquer movimento com o objetivo de evitar delação ou colaboração com a Justiça pelo ex-parlamentar.
O encontro com o empresário Joesley Batista ocorreu no começo de março, no Palácio do Jaburu, mas não houve no diálogo nada que comprometesse a conduta do presidente da República.
O presidente defende ampla e profunda investigação para apurar todas as denúncias veiculadas pela imprensa, com a responsabilização dos eventuais envolvidos em quaisquer ilícitos que venham a ser comprovados."