A decisão de biógrafo da Chapecoense, que escrevia último capítulo quando escapou da tragédia

Ivan Carlos no estádio da Chapecoense

Crédito, BBC Brasil

Legenda da foto, Narrador acompanha Chapecoense há 40 anos e escreve livro sobre o clube
    • Author, Felipe Souza e Julia Carneiro
    • Role, Da BBC Brasil

Enquanto a Associação Chapecoense de Futebol caminhava para seu ápice, a carreira do radialista Ivan Carlos Agnoletto a acompanhava até o topo. Com 990 jogos narrados da Chapecoense, ele tinha grandes planos para lançar o livro que escreve para marcar a narração de sua milésima partida.

Ivan Carlos, como é conhecido por seus ouvintes na rádio Super Condá AM, foi acordado na madrugada de terça-feira por um telefonema para sua mulher dando os pêsames pela morte do marido. "Mas como, se ele está deitado aqui do meu lado?", ela perguntou.

A história do narrador foi contada pelo seu filho Igor à BBC Brasil nesta semana. Ele estava finalizando a biografia, que escreve há seis anos, do primeiro time catarinense a se classificar para uma final internacional.

O nome de Ivan Carlos era o último nome na lista de passageiros divulgada inicialmente após a queda do voo da Lamia que levava a Chapecoense para a suada final contra o Atlético Nacional em Medellín.

Mas Ivan Carlos cedera seu lugar no voo ao colega Gelson Galiotto, "um irmão" com quem trabalhava há mais de 15 anos e sonhava em cobrir a primeira final internacional do time na Copa Sul-Americana.

Tudo isso contra a vontade de sua família, que fez até campanhas em grupos de WhatsApp para que o narrador fosse para a Colômbia.

Ivan e Igor

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Ivan e seu filho Igor (à esq.), que chegou a fazer campanha para o pai viajar para a Colômbia

"Na sexta passada, o Galiotto me visitou e falou que ele gostaria muito de fazer a final, que ele nunca tinha feito uma decisão internacional", conta o radialista.

A princípio, ele manteve a escala, mas depois se sensibilizou com o pedido do colega e ligou para ele com a boa notícia: "Você vai fazer a final. Você vai para Medellín."

Últimas mensagens

Ivan Carlos ainda tem no celular as últimas mensagens de voz recebidas de Galiotto no WhatsApp, que mostrou à BBC Brasil.

Em áudio enviado de Guarulhos às 10h56, ele reclamava de mudanças de última hora no voo antes de deixar o Brasil para a Colômbia. A mensagem diz:

"Começou de novo a incomodar esse negócio de Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Agora vamos ter que sair de voo comercial até Santa Cruz de la Sierra na Bolívia e depois lá pegar essa tal de Lamia. Olha, agora acho que vou pegar e vou voltar para Chapecó. Não gosto de sofrer muito", diz na mensagem de voz ao amigo.

O radialista diz que muitos têm perguntado se ele não sentiu um alívio por não estar no voo. "Não tem alívio. É só pesadelo", lamenta.

Bombeiros e equipes de socorro

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Equipe iria disputar o jogo mais importante de sua trajetória

O pesadelo vai agora adiar lançamento do livro que ele vinha escrevendo há seis anos. "Agora há um capítulo bem triste a ser escrito", diz.

Mas o radialista, que acompanha o time há 40 anos, já escolhera um título sofrido para o livro: "Chapecoense, uma história de sacrifício, uma paixão".

"A Chapecoense é tão apaixonante porque é uma história de sacrifício. Taí mais um, uma tragédia."

Ele agora quer esperar o time "dar a volta por cima" para lançar o livro.

"Quero terminar com a Chapecoense em alta, a Chapecoense alegre. Vou esperar um pouco mais."

'A história verdadeira'

O jornalista conta que a ideia de escrever um livro sobre a Chapecoense surgiu quando começou a ouvir histórias incorretas sobre como o time foi fundado.

"Como conheço a história em detalhes, resolvi fazer um trabalho completo. Toda a história verdadeira. Desde a fundação até o momento em que fechar o livro", afirma ele.

Ivan Carlos começou a trabalhar no clube como puxador de fios, em 1973. Quatro anos depois, virou repórter e, em 1980, começou a narrar as partidas da Chape, como os torcedores chamam o time.

No voo que matou 71 pessoas, incluindo a maioria dos jogadores da Chapecoense e mais de 20 jornalistas, estava também o repórter Edson Ebeliny - o Edson Picolé - que também trabalhava com ele há cerca de 15 anos na Super Condá.

Torcedores fazem vigília no estádio da Chapecoense

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Tragédia entristeceu e mobilizou toda a cidade

"Ele era como um filho meu", diz Ivan Carlos, apontando para a cabine no alto das arquibancadas na Arena Condá onde eles faziam as transmissões juntos, e de onde faz as narrações dos jogos da Chapecoense há 36 anos.

Após a tragédia, ele transmitiu na rádio Super Condá uma mensagem para seus ouvintes sobre a forte identificação que os torcedores sentem com o time.

"Por mais que a gente torça para Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Santos e outros grandes times, na vida a gente é mesmo uma Chapecoense", diz a mensagem.

"A gente sonha, luta, batalha, joga fechadinho na defesa, aguenta pressão no trabalho, salva bola em cima da linha no último minuto e quer ser campeão de alguma coisa. Vibrar com a felicidade, alçar voos altos", continua, para ao fim concluir: "A gente adotou a Chapecoense porque ela é a gente da gente."

Em um momento com tantas perguntas sobre o futuro do clube no ar, Ivan Carlos tem uma convicção.

"A Chapecoense vai se reconstruir. Podem ter certeza", diz ele. "O aço começa derretido. A Chapecoense vai voltar forte."