O que é a 'síndrome da filha mais velha', que sobrecarrega meninas pelo mundo

    • Author, Yang Hu
    • Role, The Conversation*

Você já ouviu falar da “síndrome da filha mais velha”? É a carga emocional que as filhas mais velhas tendem (e são incentivadas) a assumir em muitas famílias, desde muito jovens.

Cuidar dos irmãos mais novos, ajudar com as tarefas do dia a dia, cuidar de pais doentes, administrar as compras da casa, pessoalmente e online – as filhas mais velhas costumam tomar para si desde cedo um fardo pesado, mas invisível, de responsabilidades domésticas.

Mas há algo de errado com isso? Não faz sentido que os irmãos mais velhos, supostamente mais maduros, cuidem dos mais novos? E as meninas não são “naturalmente” melhores para cuidar dos outros?

Esses conceitos populares são tão enraizados que podem dificultar nossa visão do problema.

A síndrome da filha mais velha recentemente virou tendência no TikTok (#EldestDaughterSyndrome). Meninas adolescentes veem isso como uma injustiça e reclamam da carga não remunerada e pouco apreciada de trabalho que recebem nas suas famílias. E também discutem os efeitos prejudiciais disso sobre sua vida, saúde e bem-estar.

É claro que essa “síndrome” existe há séculos em muitas partes do mundo. Por que só agora ela é considerada uma questão tão importante?

Mesmo com os progressos das mulheres na educação e no emprego, elas ainda assumem a maior parte do trabalho doméstico.

De fato, o progresso rumo à igualdade de gênero no ambiente de trabalho não se traduziu em igualdade de gênero em casa. E a síndrome da filha mais velha pode ajudar a explicar por que isso acontece.

menina ajudando irmão mais novo em tarefa

Crédito, Pexels/olia danilevich

Legenda da foto, ‘Você pode tomar conta do seu irmão só um pouquinho?’

Pesquisas demonstram que crianças prestam uma contribuição considerável ao trabalho doméstico - que muitas vezes é subestimada. E, espelhando a divisão de gênero entre os adultos, meninas com idades de 5 a 14 anos passam 40% mais tempo fazendo trabalhos domésticos do que meninos.

Seguindo uma espécie de hierarquia patriarcal, é a filha mais velha que acaba sendo apontada na maioria das vezes para lidar com tarefas desse tipo.

Pelo que ficou aparente nas reclamações postadas no TikTok, a síndrome pode prejudicar o bem-estar das filhas mais velhas e “roubar” sua infância, já que elas são rapidamente levadas a assumir responsabilidades dos adultos em níveis desproporcionais – o que também é conhecido como “parentalização”. Assim, esse processo acaba permitindo que a desigualdade de gênero no trabalho doméstico se reproduza nas gerações seguintes.

Por que isso acontece

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Existem pelo menos três teorias comportamentais por trás da síndrome da filha mais velha. Muitas vezes, elas ocorrem ao mesmo tempo e se reforçam mutuamente.

A primeira é a teoria dos papéis organizacionais. Ela sugere que as filhas mais velhas frequentemente seguem suas mães, pois veem elas como modelo de comportamento de gênero.

Em segundo lugar, vem a teoria da tipificação sexual. Ela propõe que os pais, muitas vezes, atribuem tarefas diferentes a meninas e meninos, com base no gênero.

A tipificação sexual brota do entendimento de pais que veem trabalho doméstico com uma coisa "feminina". E, mesmo quando os pais procuram conscientemente incutir a igualdade de gênero nos seus filhos, a tipificação sexual pode ocorrer quando as filhas mais velhas, mesmo que inconscientemente, acompanham suas mães em atividades consideradas de gênero, como cozinhar, limpar a casa e fazer compras.

Por fim, a teoria da substituição do trabalho sugere que, quando as mães que trabalham fora têm pouco tempo disponível para o trabalho doméstico, as filhas mais velhas, muitas vezes, agem como “substitutas”. O resultado é que elas acabam dedicando mais tempo aos cuidados e às tarefas domésticas.

Por isso, muitos avanços conquistados por mães em termos de igualdade de gênero no trabalho vieram às custas do esforço de filhas mais velhas que tiveram de lidar, desde cedo, com tarefas domésticas.

Em uma análise mais ampla, é possível observar implicações que a síndrome da filha mais velha traz para a desigualdade de gênero global e para a atual crise mundial no setor de assistência.

mulher ajudando irmã mais nova em tarefa no computador

Crédito, Pexels/august de richelieu

Legenda da foto, As irmãs mais velhas acabam ajudando na lição de casa dos mais novos – entre muitas outras tarefas.

Nas Filipinas, por exemplo, muitas mães migram para a Europa, Estados Unidos e Oriente Médio para trabalhar como empregadas domésticas.

O trabalho delas libera as famílias para as quais trabalham, até certo ponto, da desigualdade de gênero em casa. Mas, nas Filipinas, as filhas mais velhas daquelas mães, muitas vezes, precisam assumir o papel de mães “substitutas” e administrar a casa.

Neste processo, além de reproduzir a desigualdade de gênero doméstica por gerações, a síndrome da filha mais velha ainda transfere essa desigualdade de uma parte do mundo para outra.

O que podemos fazer?

A “cura” pode parecer simples – é preciso que as famílias reconheçam a sobrecarga injusta que está sendo colocada sobre os ombros das filhas mais velhas e redistribuam as responsabilidades domésticas de forma mais igualitária.

Mas esta não é uma tarefa fácil. É preciso que os homens da família, particularmente, aumentem sua contribuição para o trabalho doméstico. Ou seja, é preciso desfazer séculos de mentalidade de que o cuidado e o trabalho doméstico seriam ligados ao gênero “feminino”.

Também é preciso aceitar que o trabalho doméstico, principalmente o trabalho realizado pelas crianças e pelas filhas mais velhas, é basicamente ignorado, não remunerado e subvalorizado.

O orçamento britânico de 2023 prevê um investimento de 4 bilhões de libras (cerca de R$ 25 bilhões) para ampliar a rede de creches no país, um valor considerável mas que representa apenas uma pequena fração das responsabilidades domésticas assumidas desproporcionalmente pelas mulheres e, muitas vezes, pelas filhas mais velhas.

Mas não podemos mudar aquilo que não conseguimos ver. Por isso, aumentar a conscientização sobre a síndrome da filha mais velha, não só como uma luta individual, mas também como uma questão de desigualdade de gênero, é um bom começo.

*Yang Hu é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em inglês.