'Fizeram abaixo-assinado para me demitir porque fui mãe solteira', diz Tânia Maria
Em 1975, aos 27 anos, Tânia Maria decidiu ser mãe solteira no interior do Rio Grande do Norte. A decisão a levou a ser alvo de forte estigma.
"Fui muito discriminada. O povo não queria saber de mãe solteira, era mulher sem futuro, né? Mas eu queria ser mãe."
Naquele período, ela trabalhava como orientadora de saúde em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), quando engravidou. Até um abaixo-assinado foi organizado na cidade, exigindo sua saída do cargo.
"Um chefão fez um abaixo-assinado para me tirar", lembra. "Fui lá na prefeitura e pedi demissão. Ele quebrou a cara."
Tânia Maria criou a filha sozinha, sustentando a casa como costureira, sem apoio do pai da criança.
Hoje, aos 78 anos, ela vive cercada pela família — filha, neta, bisneta e genro —, que acompanharam de perto sua atuação em O Agente Secreto, filme brasileiro indicado ao Globo de Ouro e representante do país na disputa por uma vaga no Oscar 2026.
A atriz interpreta Dona Sebastiana, uma senhora que acolhe perseguidos políticos da ditadura no Brasil.
"Sou eu mesma. Quem passa na minha frente, eu acolho. Se precisar de ajuda, eu ajudo. Se precisar de uns cascudinhos, também dou."
'Ainda não caiu a ficha que sou famosa'
Até os 72 anos, Tânia Maria nunca tinha ido ao cinema.
Quando foi avisada de que contracenaria com Wagner Moura, por exemplo, sua reação espontânea foi soltar a pergunta: "Quem é esse?".
Hoje, ela é citada pela imprensa internacional como uma possível candidata ao Oscar.
"Ainda não caiu a ficha que sou famosa", afirmou em entrevista à BBC News Brasil. "Quando eu chego no aeroporto, todo mundo me conhece".
O jornal The New York Times destacou sua atuação como uma das melhores de 2025, e revistas especializadas como Variety e The Hollywood Reporter passaram a incluí-la em listas de apostas para a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante.
O The New York Times também destacou a presença de Tânia Maria em cena. Um crítico incluiu a brasileira na lista das melhores atuações de 2025 e chamou atenção para um detalhe específico: a naturalidade com que ela fuma diante da câmera.
Fumante por mais de 60 anos, Tânia decidiu abandonar o cigarro justamente depois que o reconhecimento internacional passou a exigir deslocamentos e viagens longas.
Ela chegou a recusar um convite para ir ao Festival de Cannes, na França, por não suportar as horas de voo sem fumar.
"Eu fumava três carteiras por dia. Quer dizer que não tirava o cigarro da boca, né", conta.
"O médico que me acompanha disse, 'pode ir, eu lhe acompanho, mas a senhora vai entrar em pânico por passar duas horas sem fumar, no mínimo, no avião'. Aí não fui, desisti."
A decisão de parar de fumar veio em maio, com um objetivo: não perder mais oportunidades. Inclusive, o Oscar. Com passaporte pronto, a atriz aguarda agora o visto americano para viajar.
"Meu sonho agora é ir para o Oscar. Botei isso na cabeça. Eu quero ir, eu vou."
'Nunca imaginei ser atriz'
A atuação de Tânia, marcada pela naturalidade e pela força do cotidiano, foi descrita pela crítica como "magnética" e de "talento natural". "Nunca imaginei ser atriz. Nunca."
A entrada no cinema aconteceu por acaso. Em 2018, a equipe de Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que estrearia no ano seguinte, estava na região do Seridó em busca de figurantes locais. A produtora de elenco Renata Roberta entrou na casa de Tânia.
"Eu estava costurando e escutei umas conversas na sala de jantar. Quando chego e digo 'boa noite', ela 'é dela que estou precisando' e me perguntou se eu toparia ser figurante. Ganhando R$ 50 todo dia, eu achei bom demais", lembra.
Depois do sucesso de Bacurau, vieram outros convites. Hoje, ela soma seis filmes no currículo — todos iniciados depois dos 70 anos.
Longe de se aposentar, Tânia Maria está no elenco de Yellow Cake, filme de ficção científica dirigido por Tiago Melo que estreia mundialmente no Festival de Roterdã, na Holanda, em janeiro de 2026.
Ela também estará na série policial Delegado, prevista para 2026 no Canal Brasil, onde interpreta uma personagem "namoradeira" que flerta com o protagonista vivido por Johnny Massaro.
Aos 78 anos, ela rejeita limitações de idade. "Idade não tem validade. Eu não sou velha", afirma.
Apesar da projeção internacional com o filme, Tânia mantém hábitos simples e continua morando em Santo Antônio da Cobra, um povoado com menos de mil habitantes no Rio Grande do Norte.
A principal diferença é que a costura, antes centro do seu dia a dia, vem sendo deixada de lado para dar espaço às filmagens e viagens. "A vida de atriz é melhor."



