Morre bebê palestina resgatada do ventre da mãe após ataque israelense

    • Author, Fergal Keane
    • Role, BBC News

Sabreen morreu antes que pudesse olhar seu bebê nos olhos ou abraçá-la.

A jovem mãe carregou a filha no ventre durante sete meses e meio. Houve dias e noites de medo constante, mas Sabreen esperava que a sorte da família se mantivesse até o fim da guerra em Gaza.

Essa esperança desapareceu com o estrondo e o fogo de uma explosão uma hora antes da meia-noite de 20 de abril.

Israelenses lançaram uma bomba na casa da família Al Sakani em Rafah, onde Sabreen, seu marido e a filha de 3 anos do casal, Malak, dormiam.

Seu marido e Malak morreram instantaneamente, enquanto Sabreen ficou gravemente ferida, mas a bebê ainda estava viva em seu ventre quando a equipe de resgate chegou ao local.

Eles levaram a mulher ao hospital, onde os médicos realizaram uma cesariana de emergência para o parto da menina.

Sabreen não pôde ser salva, mas os médicos trabalharam para ressuscitar a bebê, pressionando suavementeseu peito para estimular a respiração e bombeando ar para os pulmões.

A bebê, que pesava apenas 1,4 quilo, sobreviveu à provação do nascimento.

"Ela nasceu com problemas respiratórios graves", disse o Dr. Mohammed Salama, chefe da unidade neonatal de emergência do Hospital Emirati em Rafah.

O médico escreveu as palavras "Bebê da mártir Sabreen al Sakani" em um pedaço de fita adesiva e prendeu-o ao corpo dela. Então eles a colocaram em uma incubadora.

Os médicos afirmaram que sua saúde era frágil e ela precisaria ficar ao menos um mês no hospital. Mas no dia 26 de abril, a filha de Sabreen não resistiu e veio a óbito.

Em memória da mãe

Seus pais não estavam vivos para dar-lhe um nome. Sua irmã falecida, Malak, queria que a bebê se chamasse Rouh, que significa alma ou espírito em árabe. Mas eles a chamaram de Sabreen, em homenagem à sua mãe.

Os parentes sobreviventes reuniram-se no hospital, envolvidos nos aspectos práticos da construção de uma nova vida familiar para a bebê órfã, enquanto lidavam com a dor e a raiva.

A avó materna da bebê, Mirvat al Sakani, falou da "injustiça e calúnia" do que aconteceu com pessoas que "não tiveram nada a ver com nada".

"Meu filho também estava com eles. Foi desmembrado e ainda não o encontraram. Não o reconhecem (...). Por que estão atacando eles? Não sabemos por que, como. Não sabemos, não sei (...). Eles apenas atacam mulheres e crianças", disse .

"Uma família inteira apagada do registro civil e o único sobrevivente é uma menina? E qual foi a culpa deles?", perguntou Rami al Sheikh, tio do bebê.

"Eram civis comuns", acrescentou.

A avó paterna de Sabreen, Ahalam al Kurdi, pretendia criar a menina.

"Ela é meu amor, minha alma. Ela é uma memória de seu pai. Eu cuidarei dela", disse, após o nascimento da criança.

'São todas crianças e mulheres'

O Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, afirma que dos 34 mil mortos em Gaza desde o início da guerra, pelo menos dois terços são mulheres e crianças.

Israel lançou a sua ofensiva depois de cerca de 1.200 israelenses e estrangeiros - a maioria civis - terem sido mortos e outros 253 feitos reféns em Gaza num ataque de militantes do Hamas em 7 de outubro, segundo a contagem israelense.

O Exército israelense insiste que não ataca civis e acusou o Hamas de usar a população como escudo humano.

Os ataques aéreos israelenses em Rafah na noite de 20 de abril também mataram 15 crianças da grande família Al Aal.

O pai de várias das crianças, Abed Al Aal, disse que a sua identidade foi apagada porque todos os seus filhos e a sua esposa foram mortos.

"Mostre-me um homem entre eles. São todos crianças e mulheres", disse ele.

Uma declaração militar israelense enviada à BBC após os ataques dizia: "A certa altura, as IDF [Forças de Defesa de Israel] atacaram vários alvos militares de organizações terroristas em Gaza, incluindo complexos militares, locais de lançamento e terroristas armados".

Há agora cerca de 1,4 milhão de pessoas em Rafah, que foram instruídas pelas IDF a se mudarem para o sul em busca de segurança no início da guerra.

Mas tem crescido nos últimos dias a especulação de que as forças israelenses entrarão em breve em Rafah para continuar a luta contra o Hamas.

Os Estados Unidos apelaram a Israel para adotar uma estratégia seletiva em vez de lançar uma invasão em grande escala em Rafah, o que poderia adiantar uma crise humanitária ainda mais grave na região.