PIB sobe 1,4% no 1º tri: por que analistas veem desaceleração da economia à frente

Caminhão de soja sendo abastecido durante colheita em Orizona, Goiás, em fevereiro de 2025

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Forte alta de 12,2% da agropecuária garantiu o bom desempenho da economia no começo do ano
    • Author, Thais Carrança
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 6 min

A economia brasileira cresceu 1,4%no primeiro trimestre de 2025, em relação ao trimestre anterior, informou nesta sexta-feira (30/5) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE).

O resultado ficou ligeiramente abaixodo esperado pelos analistas (1,5%), mas bem acima daquele registrado no quarto trimestre de 2024 (0,1% conforme o dado revisado, ante 0,2% divulgado anteriormente).

Em relação ao primeiro trimestre de 2024, o avanço foi de 2,9%, abaixodo trimestre anterior, quando a alta foi de 3,6% na comparação anual.

Uma forte alta de 12,2% da agropecuária garantiu o bom desempenho da economia no começo do ano, graças à safra recorde de grãos, com destaque para a soja e o milho.

Ainda na ponta da oferta, os serviços cresceram 0,3%, e a indústria recuou 0,1% em relação ao trimestre anterior.

No lado da demanda, o maior crescimento foi registrado pelos investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), com alta de 3,1%.

Esse indicador mede o quanto as empresas aumentaram seus bens de capital, aqueles usados para produzir outros bens.

O aumento foi impulsionado pontualmente pela importação de uma plataforma de petróleo da China.

O consumo das famílias cresceu 1%, sustentado pelo bom desempenho do mercado de trabalho e pelo crescimento da massa de renda, a soma de todos os rendimentos dos trabalhadores do país. Já o consumo do governo oscilou positivamente em 0,1%.

O mercado externo, por sua vez, teve contribuição negativa para o PIB do trimestre, com as importações (5,9%) crescendo mais do que as exportações (2,9%), um sinal da demanda interna aquecida.

Quando o país importa mais do que exporta, significa que estamos comprando mais coisas de fora do que estamos vendendo para outros países, e isso tira pontos do cálculo do crescimento do PIB.

Apesar do bom desempenho da atividade no início do ano, analistas esperam que a economia perca fôlego nos próximos trimestres, em linha com a expectativa de que o PIB deve crescer menos em 2025 do que no ano passado.

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A expectativa dos economistas é de uma desaceleração gradual do PIB nos próximos trimestres, em parte por causa da própria sazonalidade da economia, explica Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos.

"Quase dois terços da safra de soja são contabilizados [no PIB] entre janeiro e março, e a expectativa é de um aumento da safra de soja na casa de 15%", observa.

Ariane Benedito, economista-chefe da fintech PicPay, destaca ainda que a base de comparação forte do primeiro trimestre dificulta um crescimento mais pujante nos trimestres seguintes.

Isso porque quando a economia já está em um patamar elevado de produção ou consumo, qualquer crescimento adicional exige mais esforço.

A economista também avalia que, na segunda metade do ano, deverão ser sentidos com maior força os efeitos dos juros elevados pelo Banco Central.

Os juros altos tornam mais caro a tomada de crédito, reduzindo o consumo das famílias e os investimentos das empresas, o que funciona como um freio para a economia.

Quanto aos riscos para o ano, os economistas avaliam que o principal deles seria um possível recrudescimento da guerra comercial entre Estados Unidos e China que provoque uma desaceleração mais relevante da economia mundial, impactando o preço das commodities, que têm grande peso nas exportações do Brasil.

Donald Trump e Xi Jinping em 2019

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Agravamento da guerra comercial entre EUA e China é um dos riscos à frente

Mas eles avaliam que esse não é o cenário mais provável, diante dos reiterados recuos do presidente americano Donald Trump, que já suspendeu e reduziu tarifas aplicadas a diversos países, inclusive para a China.

No cenário interno, Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, avalia que a gripe aviária pode ter impacto para inflação e balança comercial.

Após a identificação de um caso da doença no Rio Grande do Sul, 23 países e a União Europeia restringiram totalmente a importação de carne de aves do Brasil, segundo informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) divulgadas na quarta-feira (28/5).

Outros 16 países suspenderam importações apenas para o Rio Grande do Sul e dois limitaram compras ao município de Montenegro (RS), onde foi identificado o foco de influenza aviária.

No entanto, Sobral diz que isso não deverá afetar o PIB, porque uma eventual queda das exportações de aves deve ser compensada por maiores vendas no mercado interno, o que pode baratear a carne de frango, sem que haja impacto relevante no volume de produção.

No entanto, Sobral diz que isso não deve afetar o PIB, porque a produção que deixará de ser exportada provavelmente será absorvida pelo mercado interno.

A maior oferta de frango no Brasil levaria a uma queda do preço doméstico, o que estimularia as vendas, compensando a queda da exportação sem haver um impacto relevante na produção total.

Já o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pode tornar os empréstimos mais caros para as empresas.

A alíquota passou de 1,88% para um teto de 3,5% ao ano no crédito a pessoa jurídica, e de 0,88% para 1,95% no caso das empresas do Simples.

A medida foi decretado pelo governo Lula há uma semana junto com outras mudanças, mas há uma movimentação no Congresso para derrubá-la.

Sobral avalia, no entanto, que, se passar pelo Congresso, o aumento do IOF não deverá ter um impacto muito relevante para a atividade econômica, porque as condições de crédito já são consideradas bastante restritivas devido ao aumento dos juros nos últimos meses.

Em 14,75% ao ano, a Selic está no patamar mais alto em quase 20 anos.

Pilha de carteiras de trabalho em primeiro plano, com mulher sendo atendida por funcionário público para tirar sua carteira ao fundo

Crédito, Agência Brasil

Legenda da foto, Dados fortes do mercado de trabalho no início do segundo trimestre sugerem que a desaceleração da atividade será gradual, avaliam economistas

Este é um cenário que analistas avaliam como de riscos relativamente limitados, porque, embora a guerra comercial, a crise de gripe aviária e a disputa em torno do IOF criem incertezas, seus efeitos sobre a economia não devem ser significativos.

Neste contexto, os economistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a desaceleração da economia deve acontecer de forma gradual, graças à demanda sustentada pelo mercado de trabalho ainda aquecido e pelos gastos do governo, que tendem a aumentar à medida que se aproximam as eleições de 2026.

Para Margato, da XP, os dados divulgados nesta semana sobre o mercado de trabalho no início do segundo trimestre reforçam essa percepção.

Em abril, o Brasil registrou a criação de 257 mil empregos formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), bem acima da expectativa, que era de 170 mil.

Já a taxa de desemprego ficou em 6,6% no trimestre encerrado em abril, menor do que o esperado e nível mais baixo para o mês da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE.

"São exemplos que reforçam nosso cenário de atividade resiliente, de uma demanda ainda aquecida e de um mercado de trabalho robusto", diz Margato.

Sobral e Margato destacam ainda que os estímulos fiscais do governo têm representado um peso importante na sustentação da atividade econômica.

O economista da XP cita como exemplos recentes disso o aumento do salário mínimo acima da inflação; o empréstimo consignado do trabalhador; a liberação de cerca de R$ 12 bilhões em saldos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS); e o pagamento de R$ 90 bilhões em precatórios (dívidas da União já reconhecidas pela Justiça, sem possibilidade de novos recursos).

Sobral lembra ainda que há outros estímulos a caminho, como a ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida; o aumento do vale-gás; e a redução da conta de luz para famílias de baixa renda com baixo consumo de energia.

A contrapartida desse crescimento puxado pelo gasto público é uma inflação que se mantém elevada, dizem os economistas, o que deve fazer com que o Banco Central mantenha os juros também em um nível alto por mais tempo.

A inflação alta e o crédito mais caro ajudam a explicar o mau humor dos brasileiros com a economia, mesmo com o desemprego em baixa e o aumento da renda.