EUA e Ucrânia assinam acordo histórico sobre terras raras; o que acontece agora

Crédito, Getty
Os Estados Unidos assinaram um acordo há muito aguardado com a Ucrânia nesta quarta-feira (30/04) para a exploração de minerais no país europeu.
De acordo com uma declaração do Departamento do Tesouro dos EUA, o acordo contribuirá para os esforços de reconstrução da Ucrânia no pós-guerra.
O presidente Donald Trump afirmou várias vezes que esse acordo era uma condição para fornecer garantias de segurança a Kiev enquanto a Ucrânia luta contra a invasão russa.
Em sua declaração, o governo dos EUA disse que o acordo "envia um sinal à Rússia" de que o governo Trump está "comprometido com um processo de paz centrado em uma Ucrânia livre, soberana e próspera".

A vice-primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, viajou para Washington na quarta-feira para assinar o acordo.
O pacto foi fechado dias após Trump se encontrar com o presidente ucraniano, Volodmir Zelensky, em Roma, durante o funeral do papa Francisco.
O acordo inicial deveria ter sido assinado em fevereiro, mas fracassou após uma discussão acalorada entre os dois no Salão Oval, quando o presidente americano acusou o colega ucraniano de "jogar com a Terceira Guerra Mundial".
O acordo assinado na quarta-feira envolverá a criação de um fundo de investimento conjunto para busca de minerais e estabelece como as receitas serão divididas entre os dois países.
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De acordo com o Departamento do Tesouro, o recém-criado Fundo de Investimento para a Reconstrução EUA-Ucrânia reconhece o "significativo apoio financeiro e material" que Washington forneceu a Kiev desde a invasão russa, em fevereiro de 2022.
"O presidente Trump concebeu essa parceria entre o povo americano e o povo ucraniano para demonstrar o comprometimento de ambos os lados com a paz e a prosperidade duradouras na Ucrânia", disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, no comunicado.
"E para deixar claro, nenhum estado ou indivíduo que financiou ou forneceu material para a máquina de guerra russa poderá se beneficiar da reconstrução da Ucrânia", acrescentou.
Após a assinatura do acordo, em uma publicação no X, Yulia Svyrydenko declarou que o fundo de investimento para reconstrução ajudará a atrair investimentos ocidentais para projetos de minerais, petróleo e gás ucranianos.
Ele disse que os recursos continuarão sendo propriedade da Ucrânia e que Kiev decidirá onde extraí-los.
Ele também disse que a parceria será igualitária, acrescentando que o acordo não inclui nenhuma obrigação de dívida com os Estados Unidos, o que ajudará a atrair investimentos e tecnologia para projetos na Ucrânia.
Segundo Svyrydenko, em troca, os Estados Unidos fornecerão nova assistência a Kiev, incluindo, por exemplo, sistemas de defesa aérea.
Ela também afirmou que a renda e as contribuições do fundo não estarão sujeitas a impostos em nenhum dos países.
Svyrydenko observou que o acordo ainda precisa ser ratificado pelos legisladores ucranianos e reconhece as contribuições da Ucrânia para a segurança global.

Crédito, Bloomberg via Getty Images
O ex-embaixador dos EUA na Ucrânia William Taylor aplaudiu o acordo, dizendo à BBC que a medida é um "acontecimento positivo" para a região.
Segundo ele, o acordo talvez possa ser usado como um "modelo" para os EUA proporem um novo acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia.
"É um bom sinal que os americanos vão investir na Ucrânia", diz ele.
Mas ele acrescenta que isso deve ser "complementado por uma garantia real de segurança, com força militar [como] os europeus estão falando".
O processo de extração de minerais levará décadas, segundo Taylor. Isso enviará uma mensagem clara a Vladimir Putin de que os americanos estão comprometidos com a soberania de longo prazo da Ucrânia.
Ele também espera que o acordo indique um reinício do relacionamento entre Trump e Zelensky.
A assinatura do acordo ocorre após um atraso que, segundo autoridades americanas, se deveu à tentativa da Ucrânia de negociar aspectos previamente acordados.
"Estamos prontos para assinar esta tarde, se eles estiverem prontos", disse Bessent na quarta-feira, acrescentando que a Ucrânia "decidiu fazer mudanças de última hora" no acordo.
Na tarde de quarta-feira, uma fonte americana familiarizada com as negociações criticou a Ucrânia por tentar reabrir alguns termos que aparentemente haviam sido finalizados no fim de semana anterior.
A equipe dos EUA e a da Ucrânia trabalhavam desde a noite de sexta-feira para chegar a um acordo, disse a fonte à BBC.
Ele acrescentou que os pontos críticos incluíam a governança do fundo, o mecanismo de transparência e medidas para garantir a rastreabilidade total de todos os fundos.
"Nada foi eliminado", disse Bessent anteriormente quando questionado sobre as mudanças no acordo. "É o mesmo acordo que fizemos no fim de semana. Sem mudanças da nossa parte."

Crédito, EPA
Estima-se que cerca de 5% dos materiais brutos estratégicos do mundo estejam na Ucrânia, incluindo:
- 19 milhões de toneladas de reservas comprovadas de grafite, usado para fazer baterias para veículos elétricos
- Um terço de todas as reservas europeias de lítio, o principal componente das baterias atuais.
Antes da invasão pela Rússia, a Ucrânia também produzia 7% do titânio do mundo — usado na construção de itens como aviões e usinas de energia.
O solo ucraniano também contém depósitos significativos de metais "terras raras", um grupo de 17 elementos usados para produzir armas, turbinas eólicas, eletrônicos e outros produtos vitais no mundo moderno
Alguns depósitos minerais foram dominados pela Rússia.
De acordo com Yulia Svyrydenko, ministra da Economia da Ucrânia, recursos no valor de US$ 350 bilhões (cerca de R$ 2 tri) estão em territórios ocupados pela Rússia hoje.
A pressão do governo Trump pelo acesso à riqueza mineral da Ucrânia ocorre em meio a uma crescente guerra comercial com a China, que responde por 90% das reservas mundiais atuais de terras raras.
Na quarta-feira, Trump declarou: "Como vocês sabem, estamos constantemente procurando terras raras. Eles [ucranianos] têm muitas delas, e fizemos um acordo para que possamos começar a cavar e fazer o que precisamos."















