'Saravá': a palavra de origem afro que marcou MPB, escancarou preconceitos e hoje estampa itens de decoração

Cerimônia de umbanda realizada ao ar livre no Rio de Janeiro em 1971, com pessoas vestidas de branco formando um círculo em torno de um altar com velas e objetos religiosos

Crédito, Arquivo Nacional

Legenda da foto, Evento de umbanda no Rio, em 1971; palavra 'saravá' saiu dos terreiros e foi celebrada por músicas brasileiras
    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 8 min

"Saravá" nada mais é que uma palavra de origem banto que denota uma saudação de acolhida e boas-vindas.

Mas até as palavras podem ter trajetórias atribuladas, e esse é o caso desta.

Nos mais de 100 anos desde seu primeiro registro escrito do qual se tem notícia até hoje, a palavra foi alvo de preconceitos e chacota, mas também de exaltação por alguns setores da sociedade que enxergam nela um ícone da cultura nacional.

Sua história no Brasil remonta a séculos ainda mais antigos.

O termo chegou aqui com os grupos de negros trazidos no primeiro ciclo de escravização, entre os séculos 17 e 18, de acordo com a cientista da religião, jornalista e escritora Claudia Alexandre, pesquisadora do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras da Universidade de São Paulo (USP).

Esses escravizados eram designados como bantos, generalização aplicada a dezenas de grupos étnicos distintos da região onde hoje são Angola e Congo. Este grupo está na origem de expressões culturais como os batuques, sambas e capoeiras, aponta Claudia Alexandre.

"[Saravá] Significaria inicialmente um cumprimento na língua quimbundo [parte da família linguística banto], uma saudação, 'salve'", esclarece a pesquisadora, autora de livros como Orixás no Terreiro Sagrado do Samba.

A saudação acabou sendo perpetuada por práticas religiosas dos negros, como na umbanda e quimbanda.

Segundo a historiadora Lume Watanabe, pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP) e mãe de santo no terreiro de umbanda Urubatão da Guia, "saravá" aparece escrita pela primeira vez em um ensaio jornalístico de 1923, escrito por Carlos Alberto Nóbrega da Cunha (1897-1974), um jornalista e professor de escola pública branco.

Ele era admirador da cultura dos morros, entusiasta do samba — é considerado um dos precursores do carnaval carioca, inclusive.

O texto de Cunha tinha como título Os mistérios da macumba.

"Ele menciona no final que 'saravá' era 'o salve', a maneira como 'os pretos velhos' saúdam na umbanda", contextualiza a historiadora.

Retrato de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga

Crédito, Arquivo Nacional

Legenda da foto, Donga (1890-1974) era um ícone daquilo que passaria a ser visto como cultura afro-brasileira

Na mesma época, despontava na sociedade carioca o samba, capitaneado por nomes como Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga (1890-1974).

Filho de um pedreiro com uma mãe de santo, negro e pobre, ele era um ícone daquilo que passaria a ser visto como cultura afro-brasileira — inclusive com o componente religioso.

Sua composição Sai, Exu fez com que a palavra saravá saísse dos terreiros de umbanda.

Na música de Donga, os versos são estruturados como um canto responsorial, de perguntas e respostas.

"Isso é próprio de uma estrutura musical centro-africana", analisa a historiadora.

"É banto. Nessa música, basicamente é uma pergunta falando 'saravá, vamos saravá', e a resposta vem do coro."

A bossa nova também fica afro

Foto em preto e branco de 1972 mostrando Baden Powell e Vinicius de Moraes em momento descontraído. Vinicius está sentado, de óculos escuros, sorrindo, enquanto Baden Powell, à frente, levanta o braço em gesto animado. Ao fundo, algumas pessoas observam a cena em um ambiente informal.

Crédito, Arquivo Nacional

Legenda da foto, Baden Powell e Vinicius de Moraes em foto de 1972; Powell, que virou evangélico, rejeitaria anos mais tarde cantar a palavra 'saravá'
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Nos anos 1930, músicas conhecidas como do gênero macumba começam a se tornar populares, principalmente graças ao trabalho de J. B. de Carvalho (1901-1979).

O cantor e compositor levava representações dos pontos de umbanda a programas de rádio e gravações de discos.

Outro nome de destaque foi o sambista Getúlio Marinho (1889-1964).

"Eles gravavam encenações, como se uma pessoa estivesse incorporando um preto velho. O J.B. de Carvalho, por exemplo, cantava com a fala do preto velho, aquelas coisas guturais", explica Watanabe.

Segundo a historiadora, o público tinha posturas ambíguas diante dessas apresentações.

"Ao mesmo tempo em que uma parcela da sociedade, das pessoas brancas e letradas, queria saber o que acontecia nas 'religiões dos negros', com curiosidade, existia também a repressão, uma postura pública de 'vamos condená-los'", avalia.

Nos anos 1960, o saravá chega de vez às salas de jantar da classe média por meio de uma dupla muito associada à bossa nova.

O violonista e compositor brasileiro Baden Powell (1937-2000), descendente de africanos, resolveu mergulhar no mundo do candomblé e nas sonoridades da capoeira.

Encontrou como parceiro perfeito para a empreitada o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980).

Autodenominado "o branco mais preto do Brasil", Moraes conhecia esses discos de macumba desde pelo menos 10 anos antes — e era fascinado por esse universo musical.

Em 1966, a dupla lançou o LP Os Afro-Sambas.

Uma das faixas mais famosas do disco, Canto De Ossanha, diz: "Amigo sinhô saravá/Xangô me mandou lhe dizer/Se é canto de Ossanha não vá/Que muito vai se arrepender"

Canto de Xangô também traz a saudação: "Xangô meu Senhor, saravá!"

A cultura afro-brasileira estava de vez arraigada no suprassumo da musicalidade produzida e consumida pela alta-costura do intelecto nacional.

O influenciador digital e empresário Jonathan Pires, idealizador do evento Marcha para Exu, em São Paulo (SP), lembra que várias músicas brasileiras passaram a celebrar o termo, como Saravá, Saravá!, de Martinho da Vila.

"Isso, irmão, ajudou a naturalizar a saudação no país inteiro", comenta.

Mas o próprio Baden Powell rejeitaria a palavra — e suas músicas que a incluíssem — no fim da vida.

Convertido como evangélico, o músico falou ao jornal Folha de S. Paulo em 1999 que só continuaria a cantar alguns de seus "afro-sambas".

"Só alguns não posso gravar, né? O Samba da Bênção, por exemplo. Não digo mais saravá. Posso tocar o Samba da Bênção, mas não falo saravá, porque é um louvor a satanás", afirmou Powell ao jornal.

Criminalização e caricatura

Furar a barreira em torno da cultura negra tinha, na primeira metade do século 20, um obstáculo escrito: o código penal.

A legislação instituída logo após a Proclamação da República criminalizava as práticas de matriz africana em terreiros e festas populares, classificando-as como "espiritismo, magia e sortilégios" ou "curandeirismo".

"Essa moldura legal dialogava com visões de cientificismo e moralismos então dominantes. E reverberou na imprensa, criando estigma e medo em torno do que era afro-brasileiro", comenta Pires.

Claudia Alexandre lembra que, até 1976, era obrigatório registrar os terreiros na delegacia. Além disso, ela aponta para a existência de várias leis que atingiam "diretamente o negro" e da frequente perseguição de sambistas pela polícia.

Segundo a pesquisadora, contribuíam para essa perseguição a polícia, a Igreja Católica e a imprensa.

Historiador do cristianismo, o pesquisador Lucas Gesta reconhece a participação do catolicismo na construção do preconceito contra as religiões de matriz africana.

"Assim, uma expressão comum na umbanda [saravá], simplesmente pelo fato de ser oriunda de lá, acaba sendo rejeitada, caricaturizada e ridicularizada. Repare isso em programas de comédia antigos na TV e outros meios de comunicação em massa", acrescenta Gesta.

O pesquisador diz já ter presenciado várias ocasiões em que pessoas "brincam" com a palavra "saravá" como se ela propagasse uma maldição.

"O mesmo eu via em programas na TV brasileira de comédia, no qual os atores de forma caricaturizada, usavam o termo como uma quebra ou corte de alguma ação má. Também já presenciei que, quando alguém dizia que iria acontecer uma coisa ruim a alguém, a contraparte respondia 'saravá', mas não por crer ou seguir a religião, e sim apenas para o chiste", relata Gesta.

Resgate e celebração

Copo transparente com a palavra “Saravá” impressa em vermelho, exposto em prateleira de loja de artigos religiosos. Ao fundo, outros objetos de culto afro-brasileiro, como imagens e velas coloridas.

Crédito, Chetruá Artigos Religiosos/ Divulgação

Legenda da foto, Copo da marca de Jonathan Pires estampa a palavra 'saravá'

Mas também é fato que o saravá se tornou pop.

Jonathan Pires comenta a tendência.

"Nos últimos anos, o movimento negro, as casas de religião e os artistas vêm revalorizando o 'saravá' em rituais, em redes sociais, na moda, na decoração e na cultura pop. Há uma pedagogia cotidiana contra a visão anterior", diz o empresário.

Para ele, esse cenário é resultante de avanços jurídicos, como a lei de 1997 que criminaliza o preconceito religioso, e campanhas públicas como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado em 21 de janeiro.

Mas, para Watanabe, é preciso cuidado com as novas modas.

"O mercado de consumo pega termos próprios das religiões afro-brasileiras e transforma tudo isso em produto", critica a historiadora.

"Há uma tendência de ganhar dinheiro em cima dessa nova modalidade, a partir da valorização atual. 'Saravá' está presente em camisetas e em itens de decoração."

Watanabe conta que, há alguns anos, quando teve problemas com sua família e enfrentou LGBTfobia, postou em suas redes sociais a frase "é de saravá que vivemos".

"De lá para cá, vejo gente postando essa frase nas redes sociais. É curioso", comenta a historiadora.

Em sua empresa de artigos religiosos, a Chetruá, Jonathan Pires tem copos, camisetas, placas decorativas e adesivos estampando a palavra.

Mas ressalva que faz tudo "com respeito à origem e ao sentido", "junto a mensagens educativas e símbolos que afirmam a fé sem estereótipos".

"Meu critério é simples: não é só estampa. É narrativa. Cada produto vem contextualizado, com texto explicando o sentido e a saudação, para ajudar quem compra a entender que se trata de uma expressão de respeito e boa energia. Não é folclore vazio", diz Pires.

Mas ele conta que não foram poucas as vezes em que lidou com preconceitos do outro lado do balcão — gente que lê "saravá" e assume como "coisa do mal'.

"A resposta é sempre educativa: explico a origem e o sentido e, muitas vezes, a pessoa muda de postura na hora", conta.

Em outras ocasiões, observa clientes que se sentem acolhidos ao ver a palavra.

"Entram emocionados dizendo 'é a minha fé sendo reconhecida'", relata.

Para a historiadora Lume Watanabe, o Brasil lida mal com a herança africana porque "o contato com isso é o contato também com o trauma da escravidão".

Mas os movimentos negros, principalmente a partir dos anos 1970, têm promovido um discurso de autoafirmação que celebra o resgate de manifestações culturais como a própria palavra saravá.

Para Jonathan Pires, esse termo expõe um paradoxo.

"Somos uma nação profundamente moldada por matrizes africanas, mas por muito tempo ensinada a temê-las", reflete o influenciador.

"Quando uma saudação que significa 'salve, vida, força' vira xingamento, não é a palavra que está errada, mas é a leitura racista que se impôs. O resgate atual diz muito sobre um Brasil que deseja reconhecer sua origem, reparar injustiças simbólicas e falar de si com verdade. Recolocar 'saravá' no lugar de honra é, no fundo, recolocar pessoas negras e suas espiritualidades no centro da narrativa nacional."