Como crise diplomática entre Israel e Nações Unidas se agravou em 24h

Crédito, EPA
Um racha que eclodiu em Nova York na noite de terça-feira (24/10) culminou em uma proibição de Israel a vistos para funcionários das Nações Unidas.
Em reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a guerra entre Israel e o Hamas, o secretário-geral da organização, António Guterres, disse que os ataques do Hamas em 7 de outubro, que deixaram 1.400 mortos, não aconteceram "no vácuo", fazendo referência aos "56 anos de ocupação" dos palestinos por Israel.
Israel ocupou os territórios palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia a partir de 1967, após a chamada Guerra dos Seis Dias.
Na terça-feira, quase 5,8 mil pessoas teriam sido mortas desde 7 de outubro, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Os comentários de Guterres foram respondidos pelo ministro das Relações Exteriores de Israel, Eli Cohen, que disse que "não pode haver motivo para tal massacre".
"Em que mundo você vive?", perguntou o diplomata a Guterres.
Mais tarde, Cohen disse que cancelaria sua reunião com o chefe da ONU.
Gilad Erdan, embaixador de Israel nas Nações Unidas, cobrou a demissão de Guterres, dizendo que ele "não está apto para liderar a ONU".
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Nesta quarta (25), Guterres disse que ficou chocado com como sua fala foi mal interpretada e que ele claramente condenou "os horrorosos atos de terror" do Hamas em Israel.
O secretário falou sobre os sofrimentos dos palestinos, mas disse que eles não podem "justificar os ataques chocantes do Hamas", assim como os "ataques horrendos do Hamas não podem justificar a punição coletiva do povo palestino".
Segundo Guterres, seu comentário de terça-feira foi sobre "as queixas do povo palestino".
"Ao fazê-lo, afirmei claramente: 'Mas as queixas do povo palestino não podem justificar os ataques terríveis do Hamas'."
Ele concluiu a declaração dizendo acreditar "ser necessário esclarecer as coisas".
"Especialmente por respeito às vítimas e às suas famílias", disse ele antes de terminar o seu breve discurso.
Israel anunciou que começou a negar vistos a funcionários da ONU.
Erdan disse a um programa de rádio israelense que Martin Griffiths, subsecretário-geral para Assuntos Humanitários das Nações Unidas, já teve visto o visto negado.
"Chegou a hora de ensinar uma lição a eles", disse Erdan. "Precisamos de um choque na ONU."
"Ele não poderá vir aqui para a região. As agências (da ONU) precisam constantemente trazer novas pessoas, certamente em um momento como este. Serão recusados", disse.
Erdan também afirmou que "não foi por acaso" que Antonio Guterres não tenha ido a Israel desde o início da guerra.
Guterres pediu para falar com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu duas vezes desde 7 de outubro — mas Netanyahu "recusou-se a aceitar seu telefonema", segundo Erdan.
Erdan também disse que agências da ONU criaram "uma imagem falsa" da situação no território, aceitando alegações sobre Gaza, embora "todos saibam" que ela é controlada pelo Hamas.
Ele disse que os próximos passos deveriam ser expulsar de Israel "funcionários hostis da ONU" que apresentam uma imagem falsa do que está acontecendo.
Calamidade em Gaza
Israel cortou a eletricidade de Gaza após os ataques do Hamas em 7 de outubro — o que significa que, desde então, o território depende de geradores de reserva que funcionam a base de combustível.
Na terça-feira à noite, a ONU disse que um terço dos hospitais e quase dois terços das clínicas de cuidados primários de saúde em Gaza já tinham fechado devido a danos causados pela guerra e a falta de combustível.
O correspondente da BBC em Gaza, Rushdi Abualouf, confirma que hospitais estão parando todos os serviços, exceto os de emergência, porque o combustível dos geradores está acabando.
A UNRWA, a agência da ONU criada para os refugiados palestinianos, diz que seus abrigos estão tão sobrecarregados que atingiram quatro vezes a sua capacidade.
A agência afirma que quase 600 mil pessoas estão abrigadas em 150 instalações. Isso inclui escolas e locais de saúde. A UNRWA diz ainda muitas pessoas estão dormindo nas ruas.
Israel está impedindo que combustível chegue a Gaza. O país acusa o Hamas de armazenar centenas de milhares de litros.
Oito caminhões de ajuda transportando alimentos, água e medicamentos cruzaram do Egito para Gaza de terça para quarta-feira (25/10).
Mas agências dizem que são necessários pelo menos 100 caminhões — por dia.
O governo de Gaza, controlado pelo Hamas, afirma que 80 pessoas foram mortas em ataques aéreos israelenses na última noite.
Israel diz que teve como alvo a infraestrutura do Hamas — incluindo bloqueios de estradas supostamente criados para impedir a evacuação de civis do norte da Faixa de Gaza.












