Chernobyl: a história das milhares de crianças atingidas pela catástrofe que foram tratadas em Cuba

Várias crianças com sequelas da exposição à radiação.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Algumas das crianças ucranianas que chegaram a Cuba também receberam apoio psicológico
    • Author, Beatriz Díez
    • Role, BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 7 min

"Não era como estar em um hospital. Até as crianças mais doentes se divertiam."

O ucraniano Roman Gerus guarda lembranças muito carinhosas de uma experiência que surgiu de uma catástrofe.

Estamos falando da explosão de um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl em 26 de abril de 1986, uma tragédia cujo 40º aniversário está sendo comemorado esta semana.

Fidel Castro, vestindo um típico uniforme militar verde-oliva, distribui coroas de flores para um grupo de crianças que o observam.

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Legenda da foto, Esta imagem mostra o ex-presidente cubano Fidel Castro recebendo um grupo de crianças da Bielorrússia em março de 1990

Gerus foi uma das mais de 23.000 crianças afetadas pelo acidente que receberam tratamento médico em Cuba.

O programa, patrocinado pelo Ministério da Saúde cubano, funcionou de 1990 a 2011.

Como foi essa experiência pioneira?

À beira-mar

El expresidente ucraniano Víctor Yanukovich

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Legenda da foto, O ex-presidente da Ucrânia é retratado rodeado de crianças que participaram do programa 'Crianças de Chernobyl'

"Eu estive em Cuba três vezes", conta Roman Gerus à BBC News Mundo.

"Na primeira, eu tinha 12 anos, fiquei seis meses; na segunda, tinha 14 anos e fiquei três meses; na última, tinha 15 e fiquei apenas 45 dias".

"Cada vez foi diferente, mas eu gostei de todas elas. É algo que me lembro com amor - quero voltar a Cuba com minha família para apresentar a ilha", diz.

Roman Gerus sendo examinado por uma enfermeira cubana.

Crédito, Roman Gerus

Legenda da foto, O ucraniano Roman Gerus é muito grato às pessoas que cuidaram dele em Cuba
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Ele enfatiza a beleza do cenário no qual ele aterrissou para tratar a doença de pele que se desenvolveu muitos anos após o acidente de Chernobyl.

Este jovem, hoje com 27 anos, nem tinha nascido quando o desastre ocorreu, mas sua família morava relativamente perto da antiga usina nuclear.

"Quando eu tinha 10 ou 11 anos, os médicos detectaram manchas brancas na minha pele. Era vitiligo. Tentamos tratar na Ucrânia, mas os médicos disseram que não era tão fácil, que eu precisava de remédios caros e eles não garantiam a ajuda", lembra.

"Alguém disse à minha mãe que havia um programa para ir a Cuba. Ela não acreditou no começo porque disseram que era de graça, mas ela descobriu os detalhes e preencheu os documentos".

"Esperamos pelo menos um semestre, e de repente ligaram para dizer que eu iria viajar em duas semanas. Eu não podia acreditar. Meus pais ficaram preocupados porque Cuba é muito longe da Ucrânia e eu era pequeno, mas decidimos ir em frente".

Um menino loiro coloca a mão no ombro de um menino que perdeu o cabelo, durante o que parece ser um evento.

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Legenda da foto, Crianças que foram tratadas em Cuba tinham problemas de saúde de distintas gravidades

Mais de 26 mil pacientes

O local onde Gerus desembarcou era um balneário localizado na praia de Tarará, cerca de 30 km a leste de Havana.

Fundada nos anos 1950 como uma cidade de classe média alta, tornou-se após a Revolução Cubana a sede de acampamentos infantis da organização José Martí Pioneros.

Várias pessoas com vitiligo

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Legenda da foto, Adultos também participaram do programa de assistência do governo cubano, embora a maioria fossem crianças

O governo cubano reabilitou a área para acomodar os milhares de pacientes do programa "Crianças de Chernobyl" por mais de 21 anos: de 29 de março de 1990 a 24 de novembro de 2011.

Segundo dados do Ministério da Saúde de Cuba, um total de 26.114 pacientes (84% crianças) vieram principalmente da Ucrânia, Rússia e Belarus.

As graves dificuldades que Cuba enfrentou após a dissolução da União Soviética não interromperam o programa.

Doenças diferentes

O complexo de Tarará possuía residências para crianças e seus acompanhantes, dois hospitais, uma clínica, um estacionamento para ambulâncias, cozinha, teatro, escolas, parques e áreas de lazer.

A 15 minutos de distância, havia também uma praia com 2 km de extensão.

Chegaram ali pacientes com uma variedade de doenças, desde câncer, paralisia cerebral e problemas dermatológicos até malformações, doenças digestivas e distúrbios psicológicos.

O programa estava sob a direção dos médicos cubanos Julio Medina e Omar García, que classificaram os pacientes em quatro grupos, dependendo de sua situação:

  • Crianças com condições oncohematológicas e doenças sérias que precisavam de hospitalização e ficavam na ilha por vários meses;
  • Crianças com patologias que necessitavam de hospitalização, mas não eram consideradas sérias. A permanência era de cerca de 60 dias;
  • Crianças com patologias tratáveis em ambulatório. A permanência era de 45 a 60 dias;
  • Crianças relativamente saudáveis ​​cuja permanência era de 45 e 60 dias.

Duas zonas

O caso da ucraniana Khrystyna Kostenetska, que participou do programa dos 12 aos 13 anos, correspondia ao quarto grupo.

"Fui a Cuba entre 1991 e 1992", disse à BBC News.

"Ambas as vezes eu estive lá por 40 dias - o período em que o corpo humano teria a capacidade de se recuperar de uma dose baixa de radiação".

Dentista atende criança ucraniana em Cuba; pacientes recebiam tratamento médico, dentário e psicológico

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Legenda da foto, Dentista atende criança ucraniana em Cuba; pacientes recebiam tratamento médico, dentário e psicológico

Kostenetska explica que havia duas áreas diferentes em Tarará: o campo baixo, onde as crianças com problemas de saúde mais sérios ficavam; e o alto, destinado a crianças sem problemas de saúde aparentes, mas que viveram nas proximidades de Chernobyl.

"Morávamos em pequenas casas independentes, com cerca de 15 crianças em cada. As crianças do acampamento alto não tinham tratamento médico específico, mas checavam nossa visão e nos levavam ao dentista", explica.

Ela tem lembranças conflitantes dos tempos que passou em Tarará.

"Eu me lembro de um mar incrível, ondas, sol, natureza e sorvete, mas também me lembro de crianças com sérios problemas de saúde", explica.

"Eram crianças com vitiligo que tinham que usar mangas compridas e se cobrir do sol. Mas apesar disso, o clima de Cuba curou algumas delas e acelerou a recuperação de muitas outras."

Um grupo de crianças, duas delas carecas, olha para cartazes com os dizeres "1986, 2006".

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Legenda da foto, O desastre de Chernobyl, em 1986, é o pior acidente nuclear da história.

Sol curandeiro

Gerus foi uma das crianças que se recuperaram completamente.

"Depois da segunda vez que fui, todos os pontos ficaram cinzentos e desapareceram. Tomei alguns medicamentos, mas o principal remédio era o Sol", diz ele.

"Costumávamos nadar muito, o mar era lindo. Íamos com os professores até a praia, fazia parte do tratamento. Sempre que quiséssemos, podíamos ir", recorda Gerus, que lembra também de noites com atividades recreativas como idas ao cinema ou à boate.

Uma foto mostrando um grupo de crianças

Crédito, Roman Gerus

Legenda da foto, As crianças foram distribuídas em diferentes grupos, dependendo da gravidade de suas doenças

Elementos mal explicados

Além das boas lembranças de Gerus e Kostenetska e da visão positiva que geralmente se faz do trabalho do governo cubano, obviamente em Tarará houve também situações dramáticas. Especialmente levando-se em conta aqueles que chegaram com doenças mais sérias ou que ficaram de fora do programa.

A correspondente do serviço ucraniano da BBC em Kiev, Diana Kuryshko, ressalta que o processo de seleção dos participantes não foi totalmente transparente.

"Cresci em um lugar menos poluído, mas lembro-me vivamente das consequências do acidente de Chernobyl", explica Kuryshko.

A jornalista recorda que esse foi um período de profunda crise na Ucrânia, no qual as famílias não podiam pagar passagens de avião para que crianças tratassem os efeitos da radioatividade.

"Quando o programa do governo cubano foi anunciado, as pessoas se animaram pensando que poderiam mandar seus filhos para lá", lembra.

Um grande símbolo de radiação, oxidado.

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Legenda da foto, Acidente de Chernobyl aconteceu em 26 de abril de 1986

"Você tinha muita sorte se seu filho ou filha pudessem ir para Cuba. Não ficou muito claro como os participantes eram escolhidos. A realidade é que muitos deles não eram de famílias necessariamente humildes".

Apesar das dúvidas, a percepção da colaboração cubana na Ucrânia e em outras ex-repúblicas soviéticas é positiva.

"Embora eu fosse pequeno, era capaz de entender que a situação dos cubanos era difícil, havia muita pobreza. Mas eles sempre foram muito legais, desde os trabalhadores da cozinha até os professores, os gerentes de segurança, os médicos... ", lembra Gerus.

"Eram pessoas de bom coração e isso era o mais importante".

*Esta reportagem foi publicada originalmente em 2019. A republicação marca o 40º aniversário do desastre nuclear de Chernobyl.