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Por que nova campanha da Havaianas levou grupos de direita a pedirem boicote à marca
- Author, Redação
- Role, BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 3 min
A campanha de fim de ano das sandálias Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres, colocou a marca no centro de uma nova disputa política nas redes sociais e levou apoiadores da direita a defenderem boicote aos produtos da empresa.
A reação foi motivada por um trecho do comercial em que a atriz afirma não desejar que as pessoas comecem 2026 "com o pé direito", expressão popularmente associada à sorte. Na peça publicitária, Torres diz que prefere desejar que o público comece o ano "com os dois pés", incentivando uma ideia de 'ação'.
A fala foi interpretada por políticos, influenciadores e militantes de direita como uma mensagem política velada.
Nas redes sociais, críticos acusaram a marca de misturar publicidade com ideologia e de adotar um suposto viés à esquerda. Alguns defenderam a substituição das Havaianas por produtos de marcas concorrentes.
Entre as reações, o deputado federal Rodrigo Valadares (PL-SE), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmou que a empresa estaria fazendo "campanha política explícita" e citou outras marcas de sandálias como alternativa. Já o vereador do Recife Gilson Machado Filho (PL), filho do ex-ministro do Turismo no governo Bolsonaro Gilson Machado, questionou em vídeo se a marca também passaria a ser alvo de boicote por parte do público conservador.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez um trocadilho com o slogan mais conhecido da marca, que é "Havaianas: todo mundo usa". O político mineiro sugeriu que as pessoas vão parar de usar as sandálias.
"Havaianas, nem todo mundo agora vai usar", escreveu Nikolas Ferreira nas redes sociais.
Influenciadores alinhados à direita também publicaram conteúdos criticando a campanha, dizendo que a empresa teria "misturado sandália com ideologia". Até a publicação deste texto, a empresa não havia se manifestado oficialmente sobre as acusações, e Fernanda Torres também não comentou a polêmica.
A controvérsia surge em um momento em que as Havaianas ocupam um lugar simbólico forte na cultura brasileira. Criada nos anos 1960 como um calçado simples e funcional, associado à classe trabalhadora, a sandália de borracha passou por um processo de reposicionamento ao longo das décadas, especialmente a partir dos anos 1990, quando ganhou novos modelos, cores, parcerias e projeção internacional.
Hoje, a marca é vendida em dezenas de países e se tornou um dos produtos brasileiros mais reconhecidos no exterior, frequentemente associada à ideia de brasilidade, informalidade e estilo de vida descontraído. Essa identidade forte ajudou a empresa a se diferenciar em um mercado de produtos facilmente copiáveis — mas também a expôs a disputas simbólicas em um ambiente político cada vez mais polarizado.
A reação contra a Havaianas ocorre poucos dias depois de outra mobilização de grupos conservadores nas redes sociais, desta vez contra o SBT, após a emissora convidar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes para a inauguração do canal SBT News.
O episódio gerou críticas públicas e pedidos de boicote, inclusive por parte de artistas ligados ao campo conservador, embora também tenha provocado reações de figuras da própria direita, que classificaram o movimento como exagerado.