Por que brasileiros não são considerados latinos nos EUA?

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Por que brasileiros não são considerados latinos nos EUA?

Após a celebração da latinidade no show do porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl no começo do mês, a discussão sobre se os brasileiros são ou não latinos ganhou as redes sociais.

Uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) indica um distanciamento da identidade latina para a maioria dos brasileiros.

Segundo o levantamento, de 2023, quando questionados sobre sua identidade, apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante 83% que se dizem brasileiros e 10% que se definem como “cidadãos do mundo”.

Edições anteriores da pesquisa, de 2014 e 2018, mostraram resultados similares.

“É um pouco a ideia de que nós somos autossuficientes na nossa brasilidade. Não é que nós rejeitemos a noção de América Latina, simplesmente não a temos de forma profunda, como têm nossos vizinhos”, diz Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e um dos responsáveis pelo estudo.

Mas o que explica essa diferença na identidade latina de brasileiros e dos nossos vizinhos falantes de espanhol? E qual o papel dos EUA nisso?

Apesar de ter surgido bem antes, o termo América Latina ganhou força no século 20 com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) — uma das cinco comissões regionais da ONU, criada em 1948 para fomentar o desenvolvimento econômico e social na região.

A noção de latino-americanidade, contudo, só entra mais forte no Brasil nos anos 1960.

"A esquerda intelectual, por conta das ditaduras, vai fazer uma cooperação intelectual e no movimento de emancipação contra o imperialismo americano", observa Guimarães.

É nessa época que surgem alguns dos grandes hits da MPB celebrando a latinidade, como Soy loco por ti, América, gravada por Caetano Veloso em 1968; Sangue Latino, dos Secos e Molhados (1973); Apenas um Rapaz Latino-Americano, de Belchior (1976) e Canción Por La Unidad de Latino América, de Milton Nascimento e Chico Buarque (1979).

Ser latino nos EUA

Enquanto nos países da América Latina e Caribe o termo latino-americano foi ressignificado a partir dos anos 1960, com uma ideia de união regional contra o imperialismo americano em meio às ditaduras, nos EUA, o termo "latino" tem outra história.

Por lá, latino é uma categoria étnico-racial, usada pelo Censo para classificar "indivíduos de origem ou cultura mexicana, porto-riquenha, salvadorenha, cubana, dominicana, guatemalteca e de outros países da América Central, América do Sul ou de origem/cultura espanhola", segundo a definição atualmente em vigor.

Com esta definição, que limita a classificação latino (ou hispânico) a pessoas de países "de cultura ou origem espanhola", brasileiros não são considerados latinos pelas estatísticas oficiais americanas.

Isso tem origem em uma lei, aprovada em 1976 pelo Congresso americano, que determinou a coleta de dados no país sobre "americanos de origem ou descendência espanhola".

Para implementar essa lei, em 1977, o Escritório de Administração e Orçamento dos EUA publicou os padrões para a coleta de dados étnicos e raciais no país, depois revisados em 1997 e 2024.

Na classificação de 1977, a categoria se chamava "hispânico". Vinte anos depois, em 1997, foi alterada para "hispânico ou latino" — mudança que visava aumentar a taxa de resposta, ao incluir o termo "latino", mais usado no Oeste do país, enquanto "hispânico" era mais usado no Leste, embora a abrangência do termo continuasse limitada às pessoas de países "de cultura ou origem espanhola".

Já a revisão de 2024 manteve o nome da categoria como "hispânico ou latino" e a abrangência inalterada, o que segue excluindo brasileiros da definição.

O que mudou — e deve passar a vigorar a partir do Censo americano de 2030 — é que antes "hispânico ou latino" era considerado uma etnia nas estatísticas oficiais americanas, o que significava que os hispânicos ou latinos podiam ser de qualquer raça (como brancos ou negros).

Nessa classificação, etnia dizia respeito à identidade cultural e linguística, enquanto raça dizia respeito a características físicas, herdadas entre gerações. Assim, era possível ser latino branco ou latino negro, por exemplo.

Já a partir de 2030, o Censo americano vai combinar questões de raça e etnicidade — novamente com a intenção de melhorar as taxas de resposta —, uma mudança que tem sido criticada por promover um apagamento da população americana afro-latina, segundo ativistas que fazem parte da campanha "Latino não é raça".

Assim, os brasileiros nos EUA seguem em uma espécie de "limbo estatístico", porque não são considerados hispânicos ou latinos, mas também não são vistos como brancos ou negros, no sentido que esses termos têm naquele país.

No Censo americano, os brasileiros são classificados dentro do grupo "Some Other Race (SOR)" ou "alguma outra raça".

Leia na reportagem em texto sobre a origem do termo latino e por que ele é tão polêmico.