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O país onde agências 'casamenteiras' são esperança contra baixa natalidade e governo organiza encontros de paquera
- Author, Rachel Lee
- Role, Serviço mundial da BBC
- Reporting from, Seoul
- Tempo de leitura: 8 min
Min Jung já estava se relacionando havia três anos com o seu então namorado quando ele disse, do nada, que não conseguia imaginar se casando.
A sul-coreana ficou arrasada. "Sempre pensei que nos casaríamos em algum momento", lembra ela, hoje com 30 anos.
Passado algum tempo, depois de ter se separado desse namorado, o acaso acabou ajudando ela a realizar seu sonho.
"Eu estava deitada na cama, de bobeira olhando meu celular, quando vi um anúncio de uma agência que promove encontros de casais que querem o matrimônio. Pensei: 'Por que não?'"
Foi essa decisão no calor do momento que levou a jovem de 30 anos a conhecer Tae Hyung, que agora é seu marido.
Eles estão há quatro meses casados — não foi exatamente amor à primeira vista, mas a química entre os dois deu muito certo.
"Cheguei ao nosso primeiro encontro de ressaca, porque teve uma festa de trabalho no dia anterior. Então eu não estava na minha melhor forma quando conheci minha esposa", lembra Tae Hyung.
"Mas gostei do sorriso dela; tivemos uma boa conversa. Eu queria uma segunda chance — tive que me esforçar para passar uma impressão melhor de mim depois daquele primeiro encontro."
As agências casamenteiras sul-coreanas organizam cada detalhe do primeiro encontro de seus clientes.
O primeiro passo é coletar informações pessoais de cada pretendente.
Detalhes como idade, ocupação, ativos financeiros e histórico familiar precisam ser preenchidos.
Os clientes são então classificados com base em seus perfis. Por exemplo, médicos e advogados costumam receber notas mais altas no quesito ocupação do que funcionários de escritório em grandes corporações.
Algumas pessoas acham que esse sistema de classificação é problemático, dizendo que ele é materialista e dá valor excessivo a posições sociais.
Mas, para Min Jung e Tae Hyung, encontrar alguém "semelhante" a eles era importante.
Ambos, que trabalhavam em escritórios em Seul, agora estão abrindo mais um novo capítulo conjunto em suas vidas: estão se tornando coproprietários de uma loja de vinhos.
"Minha vida teria se tornado monótona como funcionário de escritório, com uma vida rotineira", diz Tae Hyung, enquanto segura a mão da esposa.
"Mas, agora, estou fazendo algo novo e construindo uma vida junto com ela."
Crescimento das agências no pós-pandemia
As agências de casamento na Coreia do Sul relatam um crescimento da demanda nos últimos anos. Há quase mil delas operando em todo o país.
"A drástica queda nas oportunidades de encontros espontâneos durante a pandemia de covid-19 fizeram com que mais pessoas recorressem às agências", diz Han Ki Yeol, vice-presidente da N.Noble, uma empresa do setor de alto padrão.
De acordo com ele, o sucesso entre esses clientes da era covid levou a uma "mudança de percepção" positiva sobre as agências de encontros.
"No passado, os jovens pensavam que essas agências eram só para aqueles que não conseguiam se casar", diz ele.
"Agora, eles as veem como uma maneira de encontrar alguém que corresponda às suas necessidades."
Uma médica de 32 anos que é cliente de uma agência e pediu para não ser identificada diz que muitas de suas amigas já contrataram esse tipo de serviço.
"Eu costumava pensar negativamente sobre essas agências, mas agora parece normal", ela diz.
"Encontros às cegas marcados por amigos eram um fardo muito grande para mim. É difícil recusar alguém quando você tem conhecidos em comum. Os casamenteiros tiram essa pressão."
Min Jung se lembra do dia que contou aos pais sobre se inscrever na agência.
"Foi um pouco constrangedor. A percepção geral de usar uma agência de encontros não é muito boa", ela diz.
"Por exemplo, pode parecer que as pessoas estão sendo julgadas por seus perfis e se casando sem amor."
E o objetivo final, de arranjar um namoro ou um casamento, tampouco é atingido por todos.
O custo de usar uma agência é outro motivo pelo qual os clientes se sentem pressionados. As taxas variam de cerca de R$ 8,5 mil a R$ 42 mil, o que pode fazer com que alguns pretendentes hesitem a contratar o serviço ou demorem a renovar os pagamentos, em caso de necessidade de encontros adicionais.
Uma professora de 36 anos, que também pediu para permanecer anônima, usou uma dessas agências há dez anos, mas não conheceu ninguém que considerou adequado.
"As pessoas que conheci por meio de casamenteiros ou eram pessoas com o que considerava defeitos significativos ou tinham perfis perfeitos, mas exigências muito altas", ela lembra.
"Era muito frustrante. E é pouco romântico."
Encontros promovidos pelo... governo
A queda nas taxas de casamento e natalidade é um problema na Coreia do Sul há muito tempo. Apesar do recente aumento nos serviços de encontros, os números de matrimônios e filhos permanecem em níveis recordes de baixa.
Em 2023, o número de casamentos foi 40% menor em comparação a uma década atrás.
A taxa de fecundidade do país — o número médio de filhos que uma mulher terá em seus anos reprodutivos — atingiu uma baixa histórica de 0,72, a mais baixa do mundo.
Especialistas atribuem esses números às longas horas de trabalho na Coreia do Sul, que em 2017 foram as segundas mais altas do mundo, depois do México.
O equilíbrio difícil entre vida profissional e pessoal, os altos custos de moradia e de gastos com crianças também tornam desafiador para as mulheres retornarem ao trabalho após o parto.
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) diz que a taxa de fecundidade de um país precisa estar em torno de 2,1 para manter uma população estável.
Entre as medidas que o governo da Coreia do Sul está adotando para aumentar essa taxa, está justamente o patrocínio de eventos de encontros para ajudar as pessoas a achar um par romântico.
Seongnam, uma cidade a sudeste de Seul, recentemente sediou um evento do tipo pela sétima vez este ano. O prefeito de lá, Shin Sang Jin, diz que o interesse por esses encontros está crescendo cada vez mais.
Cerca de uma centena de jovens solteiros, com idades entre 27 e 39 anos e morando em Seongnam, se reuniram em um bar com música, jogos, comida e bebidas.
"Vim aqui sem pensar muito, mas agora estou nervoso", desabafou Mu Jin, participante de 32 anos. "Sinto meu coração batendo forte."
Como muitas pessoas, ele acha difícil encontrar alguém depois de entrar no mercado de trabalho.
"Meu emprego tem sido muito agitado e, agora que passei dos 30, não há tempo nem lugar para conhecer pessoas novas", conta.
"Mas a cidade proporcionou uma boa oportunidade para isso."
Apesar de ser sediado pelo governo, o evento foi animado e casual; os participantes foram encorajados a se movimentar pela sala, a se cumprimentar fazendo "high five" e a segurar as mãos um do outro enquanto conversavam.
O anfitrião dava instruções e sugestões de perguntas para manter as pessoas conversando.
Yoo Sun, na casa dos 30 anos, foi ao evento esperando encontrar um parceiro.
"Quando você tem um grupo grande como esse, de cem pessoas, é um pouco difícil formar conexões profundas, mas é uma ótima chance de conhecer gente", diz ela.
O governo afirma que esses eventos são extremamente bem-sucedidos, com 43% dos participantes tendo encontrado um par e dois casais subindo ao altar.
O governo sul-coreano também vem investindo em estímulos para futuras famílias, com maior suporte em creches e empréstimos imobiliários com juros baixos para recém-casados.
"Nos últimos 20 anos, todas as políticas para aumentar a taxa de natalidade falharam", diz o prefeito Shin Sang Jin.
"É por isso que estamos tentando ajudar os jovens a se conhecerem."
Mas alguns argumentam que o governo está ultrapassando seus limites ao interferir na vida privada das pessoas. Críticos dizem que as autoridades deveriam priorizar o apoio a mães que voltam ao trabalho e medidas para conter os altos custos.
"No final dos nossos 20 anos e início dos 30, estamos construindo carreiras, mas a sociedade nos pressiona a começar famílias até os 35", diz Min Jung.
"Com os desafios no trabalho, como a ameaça de perder empregos após a licença-maternidade, os pedidos para que as pessoas se casem e tenham bebês não parecem convincentes."
"Sem resolver essas questões, apenas dizer que as pessoas devem se casar ou ter filhos parece fora de contexto."
Apesar das pressões sociais, seu marido, Tae Hyung, diz que o casamento foi uma escolha sua.
"Estou vivendo uma vida feliz, passando momentos emocionantes com minha esposa. Me casei porque eu queria, não por causa da pressão social."