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'Cada vez mais homens votam na direita e mulheres na esquerda'
As mulheres no Brasil são mais progressistas e os homens mais conservadores.
E quanto mais protagonismo as mulheres ganham, mais força elas têm no processo político, enquanto os homens se ressentem e se voltam ao conservadorismo.
A análise é do cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador do instituto de pesquisas Quaest, e autor do livro Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros (Globo Livros, 2025).
A obra foi feita a partir de uma pesquisa realizada com 10 mil brasileiros entre novembro e dezembro de 2023, encomendada pela TV Globo, que fez um raio-x dos brasileiros.
Nunes classifica os brasileiros em nove perfis identitários, com valores, visões e preferências políticas distintas. E diz que a partir de 1998, ficou cada vez mais evidente a diferença no voto de homens e de mulheres.
"Os homens, cada vez mais votando à direita. As mulheres, cada vez mais votando à esquerda."
Confira alguns trechos da entrevista:
BBC News Brasil - O Brasil das brasileiras é mais progressista?
Felipe Nunes - O Brasil das brasileiras é bem mais progressista. Isso vem acontecendo há algum tempo. Eu acompanho os resultados eleitorais desde 1998. De lá para cá, ficou cada vez mais evidente a diferença no voto de homens e de mulheres.
Os homens, cada vez mais votando à direita. As mulheres, cada vez mais votando à esquerda. E no livro eu faço essa discussão, porque as mulheres hoje são o grande motor das transformações de valores no Brasil. São elas que sofrem, em alguma medida, com a discriminação, o machismo, o preconceito.
Mas também são elas que estão se transformando cada vez mais em protagonistas no mercado de trabalho, dentro dos lares. O IBGE acabou de mostrar isso, metade [dos lares] do Brasil é chefiada por mulheres.
Isso é uma mudança que tem impacto sobre valores muito importantes. E como a gente falou aqui, isso acaba impactando também o voto.
Eu não consigo mais olhar para a eleição no Brasil sem fazer essa diferenciação entre o comportamento das mulheres e dos homens.
Ao que parece, quanto mais protagonismo elas ganham, mais força elas têm no processo político, mais os homens se ressentem e acabam puxando um grau de conservadorismo maior.
BBC News Brasil - Então, quanto mais elas são progressistas, mais eles são conservadores?
Nunes - Essa é uma reação muito interessante que está acontecendo no mundo inteiro, não só no Brasil.
O que chama atenção aqui é que, se as mulheres em geral são mais progressistas e os homens mais conservadores, na geração ponto com, que são aqueles brasileiros que nasceram depois de 2000, essa diferença não aparece.
É como se as meninas estivessem puxando os meninos para uma visão de mais tolerância, menos preconceituosa, de menos discriminação.
E, claro, isso pode ser decisivo para a gente pensar o Brasil daqui para frente.
BBC News Brasil - As mulheres avançam no espaço público, mas, ao mesmo tempo, 66% dizem tolerar homens gays, desde que não sejam afeminados. Que forças são essas?
Nunes - Para os homens, a gente tem uma visão ainda muito tradicional. O homem tem que ser sinônimo de força, proteção, trabalho, dimensões ainda muito conservadoras e tradicionais.
No caso das mulheres, o que a gente está vendo é que uma parte do papel que a mulher tem que desempenhar ainda é o cuidado. Espera-se que ela cuide da casa, dos filhos, da família. Mas já se espera, no caso delas, que elas também participem como protagonistas do mercado de trabalho.
E o mais impressionante, há uma palavra que define bem o que se espera das mulheres no Brasil: coragem.
Coragem ao quadrado. Para andar na rua, coragem para vivenciar a violência que elas, de alguma maneira, estão habituadas — há um percentual enorme de mulheres que dizem no livro que se sentem ou já se sentiram discriminadas de alguma forma — mas também coragem para enfrentar os desafios e as mudanças do mercado de trabalho do mundo público.
Então a mulher tem que ter cuidado, tem que trabalhar e tem que ter coragem ao quadrado.
BBC News Brasil - Essa coragem aparece nas respostas das mulheres, dos homens, ou de ambos?
Nunes - De ambos. As mulheres dizem em um nível maior o reconhecimento dessa coragem por vivenciar esse dia a dia, por um lado, de violência, mas também de ter que mudar o mercado de trabalho.
Mas os homens já reconhecem que também é preciso que elas tenham coragem, porque não é simples.
Um dado curiosíssimo do livro é que aproximadamente 40% das mulheres dizem que já se sentiram discriminadas, e quase metade dos homens dizem que já viram mulheres sendo discriminadas.
Ou seja, não é um tema que ficou apenas no ambiente feminino, mas já furou essa bolha e conseguiu chegar também na visão desses homens, principalmente os mais jovens.
Você também pode ler a entrevista completa de Felipe Nunes à BBC News Brasil.