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Bolsonaro pede 'ajuda do exterior' em entrevista a jornal britânico
Na iminência do julgamento da denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolvimento em uma suposta trama golpista, o ex-presidente Jair Bolsonaro pediu "apoio do exterior" e comparou a situação do Brasil a uma "ditadura" em entrevista ao jornal britânico Financial Times.
"Temos um problema de ditadura, uma ditadura real", disse Bolsonaro na entrevista publicada na terça-feira (25/3).
"O Brasil não tem como sair dessa situação sozinho. Precisa de apoio do exterior."
Na quarta-feira, dia seguinte à publicação da entrevista, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu aceitar a denúncia contra Bolsonaro e outros sete ex-integrantes do seu governo.
Com isso, ele se tornou o primeiro ex-presidente brasileiro a virar réu sob a acusação de liderar uma tentativa de golpe de Estado.
Ao Financial Times, Bolsonaro disse ainda que a "ajuda americana é muito bem-vinda" e agradeceu o presidente americano, Donald Trump, por encerrar a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), que, segundo ele, havia "interferido" na maior democracia da América Latina (o Brasil).
O ex-presidente não disse o que exatamente espera de Trump.
Principal órgão público de ajuda humanitária dos EUA, a USAID financia no Brasil principalmente projetos ambientais e no apoio a populações vulneráveis, em parcerias com órgãos públicos e outras organizações.
Recentemente, nomes da direita brasileira, como Eduardo Bolsonaro, têm acusado a agência, sob o governo Biden, de interferir nas eleições brasileiras.
Críticas a Alexandre de Moraes
Na entrevista, Bolsonaro também faz críticas ao ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do processo sobre a suposta trama golpista.
"Teve pressa em me condenar", disse Bolsonaro. "Ele já tem a sentença para mim, 28 anos de prisão."
A defesa de Bolsonaro tem dito que não teve acesso integral às provas colhidas durante a fase investigatória do processo. Entre as provas estariam dados extraídos de telefones celulares, computadores e depoimentos.
Na abertura do julgamento na terça-feira, Alexandre de Moraes destacou que as defesas tiveram acesso aos documentos necessários.
O ex-presidente nega todas acusações e sua defesa tinha uma outra grande aposta: queria que fosse retirado da denúncia o acordo de delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-braço direito de Bolsonaro, que consideram inválido.
O argumento da defesa, entre outros, era que Cid foi coagido a colaborar. A PGR e a defesa de Cid reiteram que foi tudo feito conforme a lei.
Já na terça-feira, o STF rejeitou os pedidos das defesas e validou a delação de Cid.
"Não acho que eles me queiram na cadeia, eles me querem morto. É isso que está em jogo no Brasil", declarou o ex-presidente Bolsonaro.
Em uma entrevista anterior ao Financial Times, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente que se afastou do cargo de deputado federal para viver nos EUA, disse que Alexandre de Moraes cumpria os requisitos para sanções dos EUA sob a Lei Magnitsky, originalmente criada para punir violadores de direitos humanos na Rússia.
Eduardo disse que ficaria nos EUA para se dedicar em tempo integral a convencer o governo Trump a atuar pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro no Brasil e para obter sanções ao ministro Moraes.
Inelegível
Bolsonaro também comentou a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de torná-lo inelegível até 2030.
O ex-presidente foi julgado por causa de um episódio em julho de 2022, quando reuniu dezenas de diplomatas estrangeiros no Palácio da Alvorada e fez uma apresentação divulgando notícias falsas sobre insegurança das urnas eletrônicas e teorias da conspiração sobre a legitimidade das eleições.
O encontro foi transmitido pela emissora pública TV Brasil.
"Eu não estar na cédula eleitoral é uma negação da democracia", disse Bolsonaro na entrevista ao Financial Times. "É o fim da democracia."
Ele comparou sua situação à da oposição na Venezuela, cuja principal líder, María Corina Machado, foi impedida de concorrer nas eleições do ano passado pelo regime de Nicolás Maduro.
"A única bandeira que Lula tem é a falsa bandeira da defesa da democracia. Ele é a mesma pessoa que estendeu o tapete vermelho para Maduro", disse o ex-presidente, referindo-se à visita do venezuelano a Brasília, em 2023.