Governo Lula celebra com cautela a queda do tarifaço de Trump e turbina aposta na diplomacia comercial

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- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Tempo de leitura: 7 min
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou nesta terça-feira (24/2) sua viagem à Coreia do Sul e à Índia.
As visitas começaram na semana passada, mas foram atravessadas por um acontecimento a milhares de quilômetros de Seul ou Nova Déli: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou o chamado "tarifaço" imposto pelo presidente americano Donald Trump às exportações de diversos países, inclusive o Brasil.
A derrubada do tarifaço e a reação de Trump, que anunciou novas tarifas de 15% nos últimos dias, vêm sendo tratadas com cautela pelo governo brasileiro. Membros do primeiro e segundo escalão evitaram reações efusivas à decisão que, segundo estudos, teve o Brasil como um dos países mais beneficiados.
"Tivemos a decisão da Justiça americana contrariando aquilo que era a tese do presidente Trump. Obviamente que eu não posso julgar a decisão de uma Suprema Corte de um país. Não julgo as do meu (país), muito menos de outro país. Mas o que quero conversar com Trump é a relação entre Brasil e Estados Unidos", disse Lula durante uma entrevista coletiva na Índia, no domingo (20/2).
Mas a queda, ainda que parcial, do "tarifaço" de Trump aconteceu em um momento que sintetizou parte do que tem sido a reação brasileira à política comercial de Trump.
Lula e membros do seu primeiro escalão estavam na Ásia dando seguimento à estratégia de expandir mercados para diminuir o impacto da queda das exportações brasileiras aos Estados Unidos.
Uma estratégia que, segundo dados oficiais, parece ter dado algum resultado.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apesar de as exportações para os Estados Unidos terem caído 6,6% entre 2024 e 2025, as exportações totais do Brasil aumentaram 3%.
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A Índia, primeira parada da viagem de Lula, aumentou em 30% as exportações de produtos brasileiros no período. Um crescimento puxado pelo aumento expressivo da exportação de petróleo.
Quase um ano depois das primeiras tarifas a produtos brasileiros terem sido impostas e em meio a esse cenário internacional incerto, especialistas já começam a apontar os principais impactos que o tarifaço americano teve sobre a economia brasileira.
A BBC News Brasil analisou estudos divulgados pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AMCHAM), dados do governo federal e conversou com especialistas sobre o assunto.
Os dados apontam que, nos últimos meses, o tarifaço de Trump aprofundou ainda mais o déficit comercial entre Brasil e Estados Unidos, aumentando a diferença entre o que o Brasil exporta e o que ele importa dos americanos e colocando em riscos empresas e empregos brasileiros.
Por outro lado, o tarifaço fez com que o governo brasileiro acelerasse os trâmites de acordos comerciais, tentasse abrir novos mercados e, junto com as empresas privadas, aumentasse as exportações para outros países.

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Rombo com os EUA sobe 2.500%
Um estudo divulgado pela AMCHAM em dezembro apontou que, em 2025, sob o tarifaço de Trump, o déficit do Brasil na balança comercial com os Estados Unidos se ampliou.
Em 2024, o Brasil teve um saldo negativo entre exportações e importações de US$ 300 milhões. Em 2025, com os produtos brasileiros mais caros por conta do tarifaço, esse saldo negativo aumentou 2.500%, chegando a US$ 7,5 bilhões.
Esse aumento se deu porque as exportações do Brasil para os EUA caíram 6,6%, saindo de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões, em 2025.
Por outro lado, as importações do Brasil de produtos norte-americanos aumentaram 11,3%, saindo de US$ 40,7 bilhões para US$ 45,2 bilhões.
Esse foi o pior resultado para o Brasil desde 2022, quando o déficit foi de US$ 13,9 bilhões.
Entre os produtos que tiveram maior redução no volume exportado estão: produtos semi-acabados de ferro ou aço (-5,1%), equipamentos de engenharia civil (-5,8%), e celulose (-21,1%).
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em meio à duração do tarifaço, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu 1,3 ponto percentual.
Em 2024, o país comprou 11,9% de tudo o que o Brasil exportou. Em 2025, esse número caiu para 10,6%. Mesmo assim, os Estados Unidos ainda são o segundo maior importador de produtos brasileiros, atrás da China e na frente da Argentina.
O superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Frederico Lamego, diz que o tarifaço foi especialmente duro com alguns setores da economia brasileira.
"O tarifaço trouxe um impacto grave para alguns setores. O setor de cerâmica, por exemplo, nos disse que se a situação continuasse como estava, haveria o fechamento de fábricas ao longo do segundo semestre porque o custo estava muito alto. Houve várias empresas que tiveram que abrir fábricas nos Estados Unidos. O mesmo aconteceu com o setor de máquinas e equipamentos", diz Lamego à BBC News Brasil.
Brasil tenta ampliar parcerias
Por outro lado, especialistas e diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil nas últimas semanas apontam que um dos efeitos positivos do tarifaço para o país foi a tentativa de empresários e do governo de abrir novos mercados diante das incertezas em relação aos Estados Unidos.
"As exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram, mas em termos globais, elas aumentaram. Houve muito mais exportação para a China, para outros países da Ásia e países como a Argentina", diz o ex-secretário de Comércio Exterior do governo brasileiro e consultor Welber Barral.
Os dados do governo corroboram a afirmação de Barral.
Entre 2024 e 2025, as exportações brasileiras saíram de US$ 337 bilhões para US$ 348 bilhões, um crescimento de aproximadamente 3%.
No período, o principal comprador de produtos brasileiros, a China, aumentou sua fatia das exportações do país de 28% para 28,7%, comprando um total de US$ 99,9 bilhões.
O Brasil também viu um aumento expressivo das exportações para outros países como a Argentina (31,4%), Índia (30%), Reino Unido (30,5%) e Paquistão (132%).
"Os exportadores viram que tinham que procurar novos mercados", conclui Barral.
Parte desse aumento das exportações se deveu à ampliação das vendas de petróleo e derivados, mas também ao aumento das vendas externas de produtos do agronegócio e commodities minerais.
A Índia, por exemplo, aumentou em 59% suas importações de petróleo brasileiro, mas também aumentou em 31% suas importações de óleo de soja e, em 124% as de algodão bruto.
Um outro produto que praticamente não constava da pauta de exportações brasileiras à Índia em 2024 era o minério de ferro. Naquele ano, o Brasil exportou apenas US$ 240 do produto, contra US$ 441 milhões no ano seguinte.
Segundo o governo federal, desde 2023, o Brasil abriu 500 novos mercados para produtos brasileiros em todo o mundo.
Essa conta é feita por produto e por país. Cada novo produto autorizado em um determinado país conta como um novo mercado.
"Foi um movimento positivo em meio aos problemas do tarifaço. Vimos o Brasil adotar uma postura pragmática e ir atrás de novos acordos comerciais", diz Lamego.
Nos últimos meses, o Brasil, junto com os demais países do Mercosul (Uruguai, Paraguai e Argentina) finalizaram a etapa de assinatura do acordo comercial com a União Europeia que vinha sendo negociado há 26 anos.
No final de 2025, o Mercosul também ficou um acordo de livre-comércio com a EFTA, grupo de países composto por Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia.
Nos últimos meses, o governo brasileiro também reativou negociações como o Canadá para tentar um acordo de livre comércio nos moldes do assinado com a União Europeia. Nesta semana, durante a passagem de Lula pela Coreia do Sul, o governo do país asiático também mencionou a possibilidade de acelerar negociações para um acordo comercial do Mercosul.
Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil há uma semana afirmou que a tentativa de diversificar parceiros não foi disparada pelo tarifaço de Trump, mas que ela ganhou mais tração a partir das medidas adotadas pelo presidente norte-americano.

Crédito, Ricardo Stuckert / PR
Foco em Washington
A derrubada de parte do tarifaço de Donald Trump ainda é avaliada pela equipe mais próxima do presidente Lula, mas deverá, como disse um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, ajudar a "limpar" a pauta da reunião que deverá acontecer entre Lula e Trump em Washington.
Nesta terça-feira, Lula disse que a reunião deverá acontecer no dia 16 de março, embora a data ainda não tenha sido confirmada oficialmente.
Se ocorrer, este deverá ser o terceiro encontro pessoal entre os dois líderes. A relação entre Trump e Lula começou turbulenta e chegou ao pior ponto em julho de 2025 quando o norte-americano impôs tarifas adicionais de 50% sobre exportações brasileiras como resposta ao processo criminal que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Lula, por sua vez, disse à época que o Brasil não cederia à pressão dos Estados Unidos. A relação começou a distensionar em meados de setembro, quando os dois se encontraram, brevemente, durante a passagem de Lula pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Desde então, os dois tiveram um novo encontro na Malásia e passaram a trocar telefonemas com alguma regularidade.
Neste período, o governo norte-americano retirou sanções que haviam sido impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e derrubou tarifas sobre alguns dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.
Segundo esse diplomata, um dos objetivos da reunião entre Lula e Trump era "resolver" a situação dos produtos brasileiros que ainda estavam afetados pelas tarifas impostas por Trump.
Apesar de o governo americano ter retirado, gradualmente, as tarifas sobre alguns produtos brasileiros, principalmente produtos do agronegócio, o setor de maquinários ainda sofria com a imposição das sobretaxas.
Com a pauta "limpa" ou menos tensionada por conta do tarifaço, o governo Lula deverá focar sua reunião com Trump em pautas que foram alçadas à condição de prioridade da relação com os Estados Unidos: o combate ao crime organizado e a cooperação em projetos de exploração e beneficiamento de terras raras e outros minerais críticos.
























