Mísseis iranianos podem alcançar capitais europeias como Londres ou Paris?

Crédito, EPA
- Author, Jonathan Beale*
- Role, Repórter de Defesa
- Tempo de leitura: 6 min
Mísseis iranianos tentaram atingir a base militar conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido na ilha de Diego Garcia, no oceano Índico.
Dois mísseis foram lançados na última sexta-feira (20/3), sendo que um falhou e o outro foi interceptado, afirmou o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey.
A base de Diego Garcia fica a quase 4.000 km do Irã e é administrada a partir de Londres, mas é descrita como "constitucionalmente distinta" do Reino Unido, e considerada uma base estratégica para os EUA. A tentativa de ataque do Irã levantou preocupações sobre o alcance dos mísseis do Reino Unido e aumentou temores de que o país possa agora atingir grande parte da Europa, inclusive Londres, capital da Inglaterra.
Ainda há dúvidas sobre a capacidade dos mísseis iranianos de alcançar alvos tão distantes. Mas o míssil que falhou na última sexta-feira conseguiu percorrer cerca de 3.000 km a partir de sua base de lançamento.
Então, quão séria é essa ameaça iraniana?
O Ocidente monitora as rotas dos mísseis
Os EUA e o Reino Unido certamente tiveram indicações claras de que o Irã tentava atingir Diego Garcia e provavelmente monitoraram os mísseis em voo.
A Força Espacial dos EUA é capaz de detectar cada míssil lançado do Irã a partir da Base da Força Espacial de Buckley, no Colorado, nos EUA. No ano passado, a BBC teve acesso exclusivo para filmar dentro do centro de controle, onde é possível acompanhar a trajetória de qualquer míssil lançado em qualquer parte do mundo.
Eles utilizam uma constelação de satélites no espaço e radares potentes em terra, incluindo na base da Força Aérea Real (RAF, na sigla em inglês) em Fylingdales, no Reino Unido, capazes de rastrear o míssil desde o lançamento até o alvo.

O Irã tem capacidade para mísseis de maior alcance?
Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.
Clique para se inscrever
Fim do Whatsapp!
O lançamento, embora malsucedido, sugere que o Irã não tem sido transparente sobre o seu programa de mísseis.
O Irã já tinha declarado ter limitado unilateralmente o alcance de seus mísseis a 2.000 km. Mas Israel afirma agora que os mísseis iranianos têm o dobro desse alcance, até 4.000 km. Isso colocaria não apenas Diego Garcia ao alcance, mas também grande parte da Europa continental.
Apesar dessas declarações, há muito se sabe que o Irã possui mísseis balísticos de curto alcance, com um alcance máximo de cerca de 3.000 km. São esses mísseis que vêm sendo lançados com frequência contra Israel e países vizinhos do Golfo nas últimas três semanas.
Antes da guerra, acreditava-se que o Irã tinha estoques de mais de 2.000 mísseis balísticos de curto alcance. Apesar de EUA e Israel terem como alvo essas munições, elas continuam sendo lançadas.
Menos claro é o programa iraniano de mísseis balísticos de alcance intermediário, com alcance entre 3.000 km e 5.500 km.
Sidharth Kaushal, pesquisador sênior do think tank (centro de pesquisa e debates) Royal United Services Institute (Rusi), com sede em Londres, afirma que "há muito se entendia que os iranianos tinham um programa de mísseis balísticos de alcance intermediário antes do início desta guerra".
Ele explicou essa avaliação com base em dois motivos possíveis. Primeiro, mísseis de maior alcance seriam necessários caso o Irã quisesse desenvolver uma arma nuclear — algo que o país nega de forma reiterada, apesar das acusações do Ocidente. O segundo é que o Irã precisou desenvolver foguetes de maior alcance para o seu próprio programa espacial.
Quais mísseis o Irã disparou contra Diego Garcia?
Ainda não está claro que tipo de mísseis foram disparados contra a base dos EUA e do Reino Unido no oceano Índico.
Kaushal, do Rusi, afirma que pode ter sido uma versão do míssil Khorramshahr, do Irã, que é baseado em um modelo norte-coreano de estágio único. Esse míssil teria um alcance superior a 2.000 km, com uma ogiva de 1,5 tonelada.
No entanto, Kaushal diz que "você pode facilmente dobrar esse alcance usando uma ogiva muito mais leve", embora isso provavelmente causasse danos limitados à base em Diego Garcia.
Kaushal, do Rusi, também afirmou que é possível que o Irã esteja adaptando foguetes de seu programa espacial. Afinal, o Irã já colocou satélites em órbita com sucesso, e foguetes como o Qaem 100 "sempre foram considerados de dupla utilização".
No entanto, é pouco provável que o Irã tenha grandes quantidades de mísseis balísticos de alcance intermediário ou de longo alcance.
Os EUA e Israel já haviam atingido o programa de mísseis balísticos do Irã no ano passado, quando tentaram destruir seu programa nuclear. O que resta agora está sendo localizado e alvo de ataques.
O fato de o Irã ter lançado apenas dois mísseis em direção a Diego Garcia sugere que sua capacidade de mísseis de longo alcance é limitada.
Londres está ao alcance?
Se o Irã decidisse atingir a Europa, já existem algumas medidas em vigor para lidar com essa ameaça.
Os EUA há muito demonstram preocupação com o risco de mísseis balísticos lançados a partir do Oriente Médio.
Sob o governo do presidente Barack Obama (2009-2017), os EUA instalaram sistemas de defesa contra mísseis balísticos na Polônia e na Romênia, todos parte do sistema de defesa aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Esses sistemas Aegis Ashore utilizam os mesmos mísseis interceptadores empregados atualmente pela Marinha dos EUA para derrubar mísseis balísticos iranianos.
O Reino Unido, por sua vez, dispõe de poucos recursos de defesa contra mísseis balísticos, uma lacuna significativa reconhecida na recente Revisão Estratégica de Defesa do governo.
Por ora, porém, a ameaça parece remota.
Kaushal, do Rusi, afirma que "é concebível" que um foguete iraniano "possa alcançar Londres".
"O alcance de um míssil é algo elástico, no sentido de que, se você colocar uma ogiva mais leve em um míssil, pode estender seu alcance", disse à BBC.
Isso significa que não é "muito surpreendente" que o Irã possa, em teoria, alcançar o Reino Unido com seus mísseis, mas "e daí?"
Seria "um número pequeno de mísseis balísticos convencionais sobre um espaço aéreo bem defendido… e eles são bastante imprecisos em longas distâncias".
O analista de pesquisa Decker Eveleth, da CNA Corporation, organização sem fins lucrativos de pesquisa e análise com sede em Washington D.C., nos EUA, concorda.
Há "muitas incógnitas no projeto", disse à BBC.
"Quando se aumenta o alcance, o míssil sobe muito mais no espaço, mas isso significa que também retorna de uma altura maior… portanto, sua velocidade aumenta, e é necessário desenvolver escudos térmicos cada vez mais eficientes para proteger a carga", afirmou.
Ele acrescentou que "à medida que o tempo de voo aumenta, os erros no sistema de orientação tendem a se acumular… a imprecisão do míssil aumenta".
"É verdade que um míssil pode alcançar Londres", concluiu, mas acrescentou: "Não será particularmente preciso".
"Eu diria que o nível de risco para Londres é bastante baixo", concluiu Eveleth, da CNA Corporation,.
Justin Crump, da empresa de inteligência Sibylline, disse que a principal lição da tentativa de ataque a Diego Garcia pode não ser a capacidade dos mísseis, mas das forças que os lançam.
"O Irã ainda é capaz de surpreender os EUA e Israel após três semanas de bombardeios. Suas forças podem estar enfraquecidas, mas não estão derrotadas", disse Crump à BBC.
* Reportagem adicional de Anna Lamche



























