As buscas por desaparecidos em rio: o que se sabe sobre desabamento de ponte entre Tocantins e Maranhão

Bombeiros fazem buscas por desaparecidos com barco. Ao fundo está a ponte que desabou

Crédito, Corpo de Bombeiros/Governo do Tocantins

Legenda da foto, Bombeiros fazem buscas por desaparecidos após desabamento
Tempo de leitura: 4 min

Dias depois de uma ponte que liga os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) desabar sobre o Rio Tocantins, no domingo (22/12), uma força-tarefa que envolve militares, agentes dos dois Estados e do governo federal ainda faz buscas para encontrar desaparecidos.

A Polícia Militar do Tocantins confirmou até a noite de quinta-feira (26/12) a morte de nove pessoas, cujos corpos foram localizados: uma mulher de 25 anos; uma mulher de 45 anos; uma criança de 11 anos; um homem de 42 anos; um homem de 43 anos; uma mulher de 53 anos; uma mulher de 48 anos; e dois corpos ainda não identificados.

Além disso, foram identificados dez veículos envolvidos no acidente.

Uma das dificuldades para encontrar os corpos é que um dos veículos estava carregado com ácido sulfúrico — na terça (24), foi localizado o corpo da motorista deste caminhão — e outro carregava herbicidas. Por isso, os trabalhos de busca com mergulhadores chegaram a ser suspensos, pelo temor de contaminação da água.

Na quarta (25), a Marinha assumiu o comando das buscas e o uso de mergulhadores foi reativado.

Por conta dos produtos químicos que caíram na água, prefeituras de cidades do Maranhão e do Tocantins pediram que cidadãos evitassem contato com a água do Rio. O governo do Maranhão chegou a orientar a suspensão de captação de água para abastecimento público nas cidades banhadas pelo Rio Tocantins.

Entretanto, nesta quinta-feira, durante reunião organizada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o governo do Maranhão informou que análises realizadas até o momento indicam que não houve vazamento de substâncias químicas e que a captação de água foi retomada.

Problemas conhecidos

Imagem área mostra ponte que desabou

Crédito, Corpo De Bombeiros Militar Do Maranhao/via REUTERS

Legenda da foto, Ponto JK foi inaugurada em 1960

Inaugurada nos anos 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek tinha 533 metros — e seus problemas já eram conhecidos.

Pule Whatsapp! e continue lendo
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que obras de reparos foram feitas ali entre 2021 e 2023, mas que a ponte precisava passar por "obras de reabilitação".

Em maio de 2024, foi lançado um edital no valor de aproximadamente R$ 13 milhões "para a contratação de empresa especializada para elaboração dos estudos preliminares, projeto básico e executivo de engenharia e execução", diz o Dnit.

"A licitação, no entanto, foi fracassada, sem que nenhuma empresa tenha vencido o certame", prossegue a nota.

O jornal Folha de S.Paulo teve acesso a um relatório que mostrava que o Dnit sabia desde 2019 de situação precária na ponte que desabou.

O professor de engenharia civil da Universidade Federal do Tocantins (UFT) Fabio Ribeiro, especializado em patologia das construções, disse à reportagem que o acidente é resultado de uma série de falhas.

"É uma ponte relativamente antiga, que foi projetada e construída em condições bem diferentes do que se faz hoje. Já existia, por parte de moradores locais, denúncias. Alguns ex-alunos meus que moram na região falam que há mais de dez anos já se identificava alguns desses problemas".

Para o especialista, era evidente a necessidade de manutenção do equipamento.

"As imagens mostram armadura exposta (aço que fica dentro do concreto), rachaduras e trincas. Essa armadura exposta gera um grande problema, que é a corrosão, que é progressiva. Chega um momento em que a ponte não suporta mais a carga", diz.

"Não dá pra afirmar que não se sabia. Temos um grande problema no Brasil em relação à inspeção de pontes. Nao é feita como deveria. Quando é feita, muitas vezes barra na questão orçamentária e os reparos não são feitos."

Em nota, o Ministério Público do Estado do Maranhão informou que será aberto um procedimento para apurar "eventuais repercussões ambientais". O caso ficará a cargo da Promotoria de Justiça de Estreito.

Já o Ministério Público do Tocantins disse que "aguarda a conclusão dos laudos técnicos e diagnósticos pelos órgãos responsáveis para analisar possíveis providências em todas as áreas de sua atuação."

Ministro diz que causa será apurada

O Dnit anunciou, ainda no domingo, a interdição total no local, na BR-226/TO, e disse que equipes iriam apurar as possíveis causas da queda da ponte e tomar as medidas necessárias.

Segundo o órgão, foi decretada situação de emergência para facilitar os trâmites burocráticos para a reconstrução da ponte. O prazo estipulado para a obra é de 12 meses. E o custo estimado está entre R$ 100 a R$ 150 milhões.

Durante uma coletiva de imprensa em Estreito, o ministro dos Transportes, Renan Filho, confirmou que irá destinar mais de R$ 100 milhões para garantir a reconstrução imediata.

"Vamos, com a emergência decretada, contratar a reconstrução da ponte ainda no exercício de 2024", disse Renan Filho.

O ministro afirmou ainda que será instaurada uma sindicância para apurar responsabilidades.

"Vamos trabalhar dedicadamente para fazer dessa ponte um grande case de organização e capacidade resolutiva do Ministerio de Transportes."

'Nossa cidade está em choque'

Um vereador de Aguiarnópolis, Elias Junior (Republicanos), gravava uma denúncia sobre a falta de manutenção da ponte e acabou flagrando o momento em que a estrutura começa a ceder. Ele mostrava rachaduras no chão quando, de repente, aparece um buraco na ponte. No vídeo, é possível ouvir a pessoa que o filmava gritando: "olha, sai daí! Sai de perto, doido, meu deus do céu".

Ele disse à BBC News Brasil que os reparos eram uma reivindicação frequente dos moradores e que, por isso, foi ao local fazer os vídeos.

"É uma ponte que tem mais de 60 anos. Já estava gerando grandes preocupações. Nunca imaginaria que eu estaria gravando a situação bem na hora da tragédia", disse.

"Descemos aqui com a mão na cabeça, como se estivéssemos dentro de um filme. Nossa cidade está em choque."

Pule TikTok post
Aceita conteúdo do TikTok?

Este item inclui conteúdo extraído do TikTok. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do TikTok antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".

Alerta: A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos TikTok conteúdo pode conter propaganda.

Final de TikTok post