Terremoto em Mianmar e Tailândia deixa 1,7 mil mortos e milhares de feridos; o que se sabe

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Um forte terremoto, de magnitude 7,7, atingiu o centro de Mianmar na sexta-feira (28/3), segundo registros do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).

Um novo terremoto, com magnitude 5,1, foi registrado perto de Mandalay — a segunda maior cidade de Mianmar — na madrugada do domingo (30/3).

A junta militar no poder em Mianmar afirmou à BBC que pelo menos 1,7 mil pessoas morreram e outras 3,4 mil ficaram feridas após o episódio. Há cerca de 300 desaparecidos.

As informações vindas de Mianmar, entretanto, são escassas, já que o país vive em uma guerra civil desde 2021 que limita acesso de internet e o trabalho de jornalistas.

Bombardeios foram registrados mesmo após o terremoto. Mas o Governo de Unidade Nacional (NUG) — que está no exílio — anunciou que fará uma "pausa de duas semanas nas operações militares ofensivas" nas áreas afetadas pela tragédia.

Equipes de resgate estão correndo contra o tempo para salvar sobreviventes soterrados sob prédios desabados.

A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que uma grave escassez de suprimentos médicos está dificultando a resposta ao desastre.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um apelo rápido por US$ 8 milhões (R$ 46 milhões), enquanto grupos de ajuda humanitária alertam para o agravamento da crise humanitária na Mianmar devastada pela guerra.

Há cenas semelhantes em Bangkok, na Tailândia, onde autoridades dizem que 76 pessoas ainda estão debaixo de escombros após um arranha-céu inacabado desabar.

As autoridades do país dizem que os trabalhos de resgate continuam e ainda há esperança de resgatar trabalhadores com vida.

Entre tailandeses, há 18 mortes confirmadas até o momento.

Rachaduras em outros pédios e casas foram observadas na Tailândia — e motivaram novas orientações de evacuação.

O epicentro do tremor foi localizado a 16 km a noroeste da cidade de Sagaing, a uma profundidade de 10 km, segundo o USGS.

Os tremores foram sentidos em países vizinhos, como a Tailândia e o sudoeste da China.

Vídeos publicados nas redes sociais mostraram danos a prédios em Bangkok, capital da Tailândia, a centenas de quilômetros de distância do epicentro.

Há relatos sobre estradas e ruas danificadas na capital de Mianmar, Naypyidaw.

Segundo Min Aung Hlaing, general do exército de Mianmar, o número de mortos no país pode aumentar ainda mais.

Um membro de uma equipe de resgate em Mandalay, no centro de Mianmar, disse à BBC que "os danos são enormes".

Em Bangkok, 76 operários de um prédio de 30 andares em construção que desabou com o tremor estão desaparecidos sob os escombros.

Segundo as autoridades locais, havia mais de 400 pessoas trabalhando no local no momento da queda.

Em Mianmar, o governo decretou estado de emergência em seis regiões do país.

O país enfrenta turbulências políticas desde 2021, quando uma junta militar tomou o poder. O acesso à informação no país tem sido restrito desde então.

Segundo dados do USGS, um tremor secundário forte, com magnitude 6,4, ocorreu apenas 12 minutos após o primeiro.

Risco de liquefação

O USGS disse que Mianmar corre risco de liquefação após o terremoto. O fenômeno pode continuar a causar danos a edifícios e infraestrutura.

A liquefação é o processo pelo qual o solo saturado de água perde sua força e se comporta como um líquido durante terremotos, de acordo com o serviços americano.

"A liquefação desencadeada por este terremoto é estimada como extensa em gravidade e [ou] extensão espacial", com mais de 1.000 km² podendo ser afetados, segundo o órgão.

Se o solo sob um edifício passar por esse processo, isso pode causar grandes danos.

Além da liquefação, o USGS diz que também há um "risco significativo" de deslizamentos de terra.

Os terremotos são relativamente comuns em Mianmar, em comparação com a Tailândia.

Entre 1930 e 1956, houve o registro de seis fortes tremores com magnitudes superiores a 7 próximos à falha de Sagaing, que corta o centro do país, segundo a agência de notícias AFP, citando dados do USGS.

A Tailândia não está em uma zona de terremotos, e raramente tremores são sentidos no país.

Os edifícios em Bangkok não são planejados para resistir a fortes terremotos, razão pela qual houve registros de colapsos na capital tailandesa.

'Ainda não sabemos a extensão da destruição'

Mohamed Riyas, diretor do Comitê Internacional de Resgate no país, afirma que pode levar semanas até que a dimensão total dos danos causados pelo terremoto seja conhecida, já que as linhas de comunicação estão fora do ar e o transporte foi afetado.

Milhares de pessoas em Mianmar podem precisar urgentemente de abrigo, comida e assistência médica, diz Riyas.

Um homem que faz parte de uma equipe de resgate formada por voluntários, que estão ajudando em vilarejos próximos à região de Mandalay, contou que as equipes precisam de máquinas para alcançar pessoas presas sob os escombros.

"Estamos retirando as pessoas com as mãos. Isso não é suficiente para resgatar os corpos e as pessoas que estão presas sob os escombros", disse.

"As pessoas gritam: 'Me ajudem, me ajudem'. Me sinto impotente."

Até agora, o foco tem sido Mandalay, mas ele afirma que os piores danos que viu foram em pequenos vilarejos próximos.

O voluntário também relatou ter visto prédios desabados em Amarapura e Tada-U. A BBC não conseguiu verificar essas informações de forma independente.

"A situação lá é ainda pior do que em Mandalay. Só na vila de Bone Oe, mais de 100 pessoas morreram", disse o homem, que pediu anonimato por temer represálias do Exército.

Militares pedem ajuda internacional

A junta militar que governa Mianmar fez um raro pedido de ajuda internacional, mas o governo paralelo de oposição, conhecido como Governo de Unidade Nacional (NUG, na sigla em inglês), defende que qualquer assistência seja distribuída por redes locais independentes.

Um porta-voz do NUG pediu à comunidade internacional que envie ajuda por "canais independentes, locais e confiáveis".

Em uma postagem no Facebook, Sasa [representante do NUG] listou as áreas onde a necessidade é "desesperadora", incluindo abrigo seguro, água potável e atendimento médico de emergência.

"Pedimos à comunidade internacional: enviem apoio por redes independentes e locais para garantir que a ajuda real chegue às pessoas reais, rapidamente", disse.

O NUG foi formado em abril de 2021 por grupos que se opõem à junta militar.

Os militares tomaram o poder em fevereiro daquele ano, dez anos depois de terem concordado em entregá-lo a um governo civil. Desde então, a junta reprimiu brutalmente a dissidência, executando ativistas pró-democracia e prendendo jornalistas.

Desde que tomou o poder, o governo de Mianmar "destruiu o cenário midiático" do país. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, a junta militar "não tolera nenhuma narrativa alternativa" e rapidamente proibiu veículos de imprensa críticos ao regime, além de restringir restringiu o acesso a diversos sites e plataformas de redes sociais.

A dura repressão aos protestos pró-democracia levou muitos jovens a fugir para regiões controladas por grupos étnicos armados, onde pegaram em armas contra o Exército.

Uma trabalhadora humanitária em Mianmar relatou à BBC as dificuldades para atuar em meio à crise política que se arrasta desde o golpe militar de 2021.

"Muito do nosso trabalho acontece sem buscarmos aprovação oficial. Mas, ao mesmo tempo, Mianmar é um lugar onde nada pode ser feito sem aprovação", afirmou.

"Isso significa que estamos sempre tentando não ser notados. Se formos, corremos o risco de sermos presos, detidos e sofrer represálias."

Ela explicou que as áreas próximas ao epicentro do terremoto ainda são redutos militares, o que torna o trabalho de resgate ainda mais difícil.

"O pedido de ajuda internacional por parte dos militares é um sinal positivo", disse.