A história de como um carteiro transformou acidentalmente o abacate no mundo

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- Author, Felipe Llambías
- Role, BBC News Mundo
Rudolph Hass estava prestes a extrair da terra um pequeno abacateiro que havia plantado em sua horta - e que não estava dando certo - quando foi convencido a não fazê-lo.
Era final da década de 1920. Ele havia chegado a Pasadena, nos arredores de Los Angeles, em setembro de 1923 com a esposa Elizabeth e a filha de 18 meses, Betty. Parte da família, que já havia se estabelecido na área, os incentivou a se mudar para a região.
Eles haviam percorrido 3,3 mil quilômetros partindo de sua terra natal, Milwaukee, no norte dos Estados Unidos, em uma viagem complicada a bordo de um velho Ford T que Rudolph comprou de um colega de trabalho em 1920 por US$ 75 e que chegou ao sudoeste do país sem o para-choque traseiro e com um pneu furado.
Na Califórnia, Rudie, como era chamado, primeiro conseguiu um emprego em uma barraca de frutas e verduras, depois foi vendedor de um fabricante de meias, roupas íntimas e acessórios. Ele também vendeu máquinas de lavar e aspiradores de pó, até ser contratado como carteiro pelo correio de Pasadena.
Isso aconteceu, segundo as anotações de sua esposa, em 1926. Mas o texto com essa data foi escrito décadas depois e outros dados nele incluídos não coincidem exatamente com a documentação que comprova o vínculo empregatício.
Uma árvore de dinheiro

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Um dia, enquanto entregava correspondências, Rudie viu um anúncio em uma revista de terrenos com abacateiros que tinham notas de dólares penduradas em seus galhos, segundo a versão de Elizabeth.
GinaRose Kimball, historiadora do abacate hass, acredita que aquele anúncio provavelmente mostrava uma sacola com o símbolo de dólares e uma dessas frutas ao lado, em vez de uma árvore de dinheiro.
A Califórnia, que não teve plantações de abacate enquanto era território mexicano, começou timidamente a cultivá-los quando, na década de 1870, três mudas trazidas do México foram plantadas em Santa Bárbara; meio século depois, o cultivo de abacates passou a ser promovido como um promissor negócio no Estado.
Rudie ficou entusiasmado e, quando conseguiu vender uma propriedade que tinha perto de Milwaukee, pegou o dinheiro, pediu outra parte emprestada a uma irmã e foi ao escritório do empresário de Los Angeles que havia feito o anúncio.
Era Edwin Hart, que conheceu o abacate no México no final do século 19 e em 1919 comprou a fazenda La Habra, de cerca de 1.500 hectares nos arredores de Los Angeles e não muito longe de Pasadena, para plantar essa fruta e depois vender lotes.
Rudie comprou um terreno de 7,8 mil m² que já tinha alguns abacateiros naquela área rural, rebatizada de La Habra Heights. Ele concordou em pagar US$ 3.800 em parcelas trimestrais. O depósito inicial foi de US$ 760.

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"Quando ele comprou, queria cultivar uma variedade diferente, possivelmente lyon", diz Kimball. É uma variedade guatemalteca – de tamanho grande e casca dura – que um homem chamado Lyon plantou em Hollywood no início dos anos 1900 e que em seus primeiros anos parecia a mais promissora. Na Califórnia era comum, naquela época, que os donos das plantações de abacate batizassem novas variedades da fruta com seus sobrenomes.
Na época em que Rudie iniciou o negócio, a variedade mais comum era a fuerte, chamada assim por ter sobrevivido a uma forte geada ocorrida na Califórnia em 1913. Esse abacate é do tipo mexicano e se caracteriza por ter uma casca macia e lisa, fácil de descascar.
O horticultor Albert Rideout tinha então um viveiro de mudas de abacate perto da La Habra Heights. Qualquer semente de abacate que encontrava, onde quer que fosse, ele plantava em busca de novas variedades.
Rudie foi àquele viveiro e comprou um saco do que pensava ser abacate guatemalteco, que, ao contrário do mexicano, tem a casca dura.

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Tentativas falhas
De volta à sua horta, Rudie pegou caixas de maçãs que encheu de serragem e plantou as sementes dentro. Ele as regou e regou até brotarem, e quando as hastes estavam com a espessura de um lápis, pouco mais de meia polegada, ele as levou para o solo e as protegeu com papelão.
Logo, com a ajuda de um especialista chamado Caulkins, usou essas novas plantas para enxertar brotos retirados dos abacateiros fuerte e lyon.
Essa técnica é utilizada para reproduzir plantas, mas não implica criar um híbrido do novo com o antigo; as misturas genéticas são formadas através da polinização. Em vez disso, esse método procura cultivar novas árvores da variedade da semente. No caso de Rudolph Hass, ele queria novas árvores de fort e lyon.
Mas uma das novas plantas se negava a receber esses enxertos. Tentaram uma vez, não conseguiram. Uma segunda vez, nada. Para cada nova tentativa, eles tinham que esperar a época do ano em que isso deveria ser feito. Na terceira tentativa fracassada, Rudie se cansou e quis remover a nova árvore de sua horta.
Caulkins sugeriu que ele não a matasse, que a deixasse lá.

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Abacates de aspecto desagradável
Em 1931 essa planta deu seus primeiros seis abacates. Para o ano seguinte foram 125.
Eram escuros por fora, uma mistura de preto e roxo, com casca rugosa, e davam uma impressão desagradável, como se estivessem podres. Nada a ver com a casca verde brilhante dos abacates que comiam na Califórnia.
Mas seus filhos experimentaram e gostaram muito. Por dentro eram cremosos, com alto teor de óleo e de boa consistência – não eram fibrosos. Ali Rudie notou a veia comercial do alimento.
"Rudolph, além de trabalhar em tempo integral, era vendedor. Mandava os filhos para a esquina, West Road com Hacienda Road, com caixas de madeira para vender os abacates. Vendia onde podia: para os amigos, para seus colegas de trabalho no correio", diz Kimball.
No começo foi difícil para ele pela aparência da fruta, mas aos poucos convenceu mais pessoas.
"O senhor Carter, da empresa de abacates, veio e encorajou Rudie a fazer um teste. Ele enviou uma caixa para Chicago, ida e volta (...) e na volta eles ainda estavam sólidos", escreveu sua esposa no caderno de memórias da família.
Isso o entusiasmou, pois até então o carregamento de abacates enviados para o nordeste do país chegava em mau estado, maduros demais ou com "machucados" que aceleravam a sua putrefação.

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O legado de Hass
Em 1935, Rudie decidiu patentear seu abacate como uma nova variedade e lhe deu seu sobrenome. Ele então fez parceria com Brokaw, tio de Rideout que tinha grandes plantações na área, para expandir a produção do abacate hass.
Não foi um grande negócio. Em agosto de 1952, quando os direitos da patente expiraram, Rudie havia ganhado apenas cerca de US$ 4.800.
"O nome pegou, mas o dinheiro nunca chegou", diz Jeff Hass, um de seus netos.
Em junho de 1952, ele se aposentou de seu emprego no correio e seu chefes no correio de Pasadena anunciaram que lhe dariam um certificado de agradecimento pelo tempo trabalhado.

O certificado chegou em novembro daquele ano, mas Rudie havia morrido um mês antes, vítima de um ataque cardíaco.
Hoje, a variedade representa 95% dos abacates produzidos no mundo, segundo Peter Shore, vice-presidente de gerenciamento de produtos da Calavo, empresa fundada por produtores de abacate da Califórnia. E é uma indústria multibilionária.
"Há milhões e milhões de abacateiros hass, e todos eles vieram daquela árvore original", afirma Shore.
Rudie acreditava que seu abacate hass era do tipo guatemalteco, mas um estudo publicado em 2019 sobre seu genoma confirmou que a origem dessa fruta é 61% mexicana e 39% guatemalteca.

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"Os genes mexicanos permitem que o hass atinja a maturidade mais cedo do que os cultivos guatemaltecos puros e dão à árvore e à fruta mais tolerância ao frio, embora não tanto quanto o cultivo mexicano puro. Os genes guatemaltecos dão casca mais grossa à fruta, mas fina o suficiente para descascar facilmente", observa o livro Avocado Production in California. A Cultural Handbook for Growers, um manual para produtores que foi publicado pela Universidade da Califórnia e pela Sociedade de Produtores de Abacates da Califórnia.
A árvore-mãe acabou adoecendo e em 2002 precisou ser derrubada.












