China e EUA entram em acordo sobre tarifas; entenda

Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, fala durante entrevista coletiva

Crédito, EPA-EFE/Shutterstock

Legenda da foto, Segundo o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ambos os lados cortarão as tarifas em 115% a partir de quarta-feira
Tempo de leitura: 5 min

Os Estados Unidos e a China concordam em reduzir as tarifas sobre os produtos um do outro por 90 dias, em uma grande redução da escalada de sua guerra comercial.

Segundo o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ambos os lados cortarão as tarifas em 115% a partir de quarta-feira (14/5).

Isso significa que as tarifas americanas sobre as importações chinesas cairão para 30%, enquanto as tarifas chinesas sobre produtos americanos cairão para 10%.

Representantes dos dois países se reuniram em Genebra, na Suíça, durante o fim de semana.

Em um comunicado conjunto sobre o acordo, ambos os lados concordaram em "estabelecer um mecanismo para continuar as discussões sobre relações econômicas e comerciais".

Eles ainda reconheceram a "importância de suas relações econômicas e comerciais bilaterais para ambos os países e para a economia global" e afirmaram que novas rodadas de negociação podem ser realizadas no futuro nos EUA ou na China.

O ministro do Comércio chinês, Wang Wentao, disse esperar que os EUA "continuem trabalhando com a China" no comércio.

Inicialmente, também cairia sobre a China uma tarifa extra, de 20%, relacionada ao fentanil. Mas Trump afirmou que o país asiático concordou em interromper o envio do medicamento aos EUA, e a taxa foi suspensa.

"E eles concordaram que vão impedir isso", disse Trump.

A China é a principal fonte dos precursores químicos usados ​​na produção de fentanil, que mataram mais de 74.000 americanos em 2023 após o uso de misturas contendo fentanil, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Estados Unidos e China se envolveram nas últimas semanas em uma crescente rivalidade.

O anúncio no início de abril feito por Trump, de que seriam aplicadas tarifas de 34% sobre produtos chineses gerou uma retaliação em igual medida de Pequim.

Isso desencadeou novos golpes e contra-golpes de ambos os lados que resultaram em tarifas americanas que somaram 145% contra a China e de tarifas de 125% sobre produtos americanos importados pela China.

Os anúncios geraram instabilidade nas bolsas de valores e temores de recessão e impactos negativos na economia global.

A correspondente da BBC em Pequim, Laura Bicker, afirma que as autoridades chinesas estavam começando a se preocupar com o impacto das tarifas americanas. Bessent também reconheceu no mês passado que a situação havia se tornado insustentável.

Após o anúncio do acordo nesta segunda, o valor do dólar americano e do yuan chinês subiram.

'Um corte maior do que o esperado'

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Segundo Theo Leggett, correspondente de negócios internacionais da BBC, o corte tarifário foi maior do que o esperado – "e isso foi bem recebido pelos analistas".

A tarifa atual dos EUA, de 30%, ainda é alta – mas foi descrita por analistas como "administrável".

"Por enquanto, as notícias de hoje estão sendo vistas como um avanço bem-vindo", diz Leggett.

Na Casa Branca, Trump disse aos repórteres que não espera que as tarifas americanas retornem a 145% após o fim da pausa de 90 dias.

Ele afirmou repetidamente que Pequim quer "muito" fechar um acordo e evitar um retorno ao pior da guerra comercial entre EUA e China.

À Fox News, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, classificou o acordo como "um primeiro passo extraordinário na direção certa".

A China também concordou em "continuar as discussões" sobre a abertura adicional de seu mercado a produtos e bens americanos, afirmou ela, e em "continuar discutindo seriamente o grave impacto que o fentanil produzido na China está tendo" nos EUA.

"O presidente Trump continuará as negociações com a China para que possamos, com sorte e inevitavelmente, chegar a um acordo comercial amplo, justo e abrangente", acrescenta.

O presidente americano também afirmou que está previsto um encontro com o presidente chinês, Xi Jinping, "talvez no fim da semana".

90 dias serão o suficiente?

Jonathan Josephs, repórter de Negócios, avalia que o tempo de 90 dias estabelecido para a redução das tarifas dá aos negociadores americanos e chineses a chance de aliviar as tensões que atingiram a economia global desde janeiro.

No entanto, ele lembra que houve negociações entre as duas maiores economias do mundo durante a maior parte do primeiro mandato de quatro anos de Trump, que trouxeram sucesso limitado.

Um "Acordo Comercial de Fase Um" foi firmado em janeiro de 2020, no qual a China se comprometeu a aumentar as importações americanas em 200 bilhões de dólares acima dos níveis de 2017 e a fortalecer as regras de propriedade intelectual.

Em troca, os EUA cortaram algumas tarifas. Mas a China nunca conseguiu atingir suas metas de compra — e ainda há reclamações sobre proteções à propriedade intelectual.

Além disso, nos anos seguintes, ambos os lados adicionaram restrições ao comércio entre si.

A dificuldade em superar suas diferenças aponta para o conflito mais fundamental de longo prazo entre as duas maiores economias do mundo.

A economia da China é gerida com muita influência do governo, o que não se coaduna com o capitalismo de livre mercado dos Estados Unidos — e, em particular, com as falhas que Trump identificou e está tentando resolver com sua guerra comercial.