Homem morre ao detonar explosivos em frente ao STF: o que se sabe até agora

Foto noturna mostra viaturas da polícia e prédio do STF ao fundo

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Houve pelo menos duas explosões perto do STF
Tempo de leitura: 8 min

Duas explosões aconteceram na noite de quarta-feira (13/11) nas proximidades do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, deixando uma pessoa morta.

Um boletim de ocorrência da Polícia Civil do Distrito Federal identifica o homem que morreu como Francisco Wanderley Luiz. Ele próprio lançou explosivos contra o STF e deitou sobre um artefato que explodiu em seguida.

A Polícia Federal investiga as explosões na praça dos Três Poderes como ato terrorista. Na manhã desta quinta-feira (14/11), o diretor-geral da PF Andrei Passos Rodrigues afirmou que o episódio não é um fato isolado, mas conectado com várias outras ações que já são apuradas em outras investigações.

Wanderley Luiz disputou a eleição de 2020 na cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, pelo Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas Wanderley Luiz não conseguiu número de votos suficientes para ser eleito vereador.

Nas urnas, ele se identificou como Tiü França. Um perfil no Facebook com esse nome, que não está mais disponível, mostrava uma foto dele dentro do STF e o texto: "Deixaram a raposa entrar no galinheiro (chiqueiro) ou não sabem o tamanho das presas ou é burrice mesmo."

Além disso, mensagens de WhatsApp atribuídas a ele mencionam bombas, "comunistas de merda" e pedidos de urnas auditáveis.

Imagens das câmeras de segurança do Supremo mostram a dinâmica das explosões. No vídeo, Wanderley Luiz aparece se aproximando do prédio do Supremo. Ele lança algo em direção à estátua da Justiça.

Um segurança do STF se aproxima e aborda Wanderley Luiz, que recua. Mas pouco depois, ele lança um artefato em direção ao STF. Depois, lança outro, que explode instantes depois. Em seguida, acende mais um e se deita com a cabeça sobre o explosivo, que é detonado.

O que se sabe até o momento

Infográfico mostra locais das explosões em Brasília
Legenda da foto, Após uma primeira explosão em estacionamento entre o STF e o Anexo IV da Câmara dos Deputados, outra explosão ocorreu na Praça dos Três Poderes (local indicado acima)
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Por volta de 19h30, houve uma primeira explosão em um carro que estava num estacionamento entre o STF e o Anexo IV da Câmara dos Deputados.

No porta-malas do veículo, foram encontrados fogos de artifício e tijolos. O carro estava registrado no nome de Wanderley Luiz.

Cerca de vinte segundos depois, outra explosão ocorreu na Praça dos Três Poderes — que fica entre o STF, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.

Segundo a governadora em exercício do Distrito Federal, Celina Leão, Wanderley Luiz tentou entrar no STF, mas não conseguiu.

De acordo com as investigações, imagens das câmeras de segurança e relatos de testemunhas, o homem tentou entrar no STF, jogou explosivos na marquise do edifício e mostrou que tinha artefatos presos ao corpo.

A Polícia Militar do DF informou que, ao chegar ao local, "policiais militares encontraram um indivíduo que aparentemente tirou a própria vida com um explosivo".

A área foi imediatamente isolada para uma varredura em busca de outros artefatos e "todos os principais prédios de Brasília e o aeroporto tiveram o reforço do policiamento", de acordo com a PM.

Um segurança do STF disse à Polícia Civil que Wanderley Luiz estava com uma mochila, de onde tirou uma blusa, que foi jogada na estátua que fica em frente ao Supremo.

Quando o segurança tentou se aproximar, o homem abriu a camisa e mostrou algo semelhante a um relógio digital, que parecia estar acoplado a uma bomba. Na sequência, ele lançou alguns artefatos, deitou-se no chão, acionou um explosivo e o colocou na nuca.

Segundo a Polícia Civil, ele havia alugado uma casa em Ceilândia (DF) poucos dias atrás.

Cães e robôs foram usados para inspecionar a área, pois temia-se que mais explosivos estivessem perto do corpo.

O STF foi evacuado e uma votação na Câmara foi suspensa durante a noite.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava no Palácio da Alvorada, que fica a cerca de 4 km da Praça dos Três Poderes, no momento das explosões.

Ele se reuniu com os ministros do STF Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin e com diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.

O ministro Marcos Antonio Amaro, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), afirmou que o Palácio do Planalto já foi inspecionado após as explosões próximas e pode ser usado por Lula nesta quinta-feira, caso necessário.

Viatura próxima a estátua da Justiça durante a noite

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Corpo foi encontrado próximo a estátua que representa a Justiça, em frente ao STF

"Não é fato isolado"

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que "grupos extremistas estão ativos".

Rodrigues disse que o episódio "não é fato isolado" e está "conectado com várias outras ações que a PF tem investigado no período recente".

A Polícia Federal informou que já iniciou um inquérito para investigar o caso. Equipes do esquadrão antibombas, do Comando de Operações Táticas (COT) e peritos foram enviadas ao local para iniciar as investigações e garantir a segurança da área.

Um inquérito policial foi instaurado, sob sigilo, e as autoridades trabalham com a hipótese de atentado contra o Estado Democrático de Direito e atos terroristas, segundo a PF. O caso também será investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

"Determinei instauração de inquérito policial, que foi inicialmente feito aqui na superintendência da Polícia Federal, e encaminhamento à Suprema Corte, em razão das hipóteses criminais de atos que atentam contra o estado democrático de direito e também de atos terroristas."

Rodrigues disse que "há indícios de um planejamento de longo prazo".

A ocorrência na capital acontece às vésperas da Cúpula do G20 no Rio de Janeiro (RJ), marcada para as próximas segunda (18/11) e terça-feira (19/11). O G20 reúne as 19 maiores economias do mundo, União Europeia e União Africana.

Entre as lideranças mundiais presentes estarão o norte-americano Joe Biden e o chinês Xi Jinping.

Bolsonaro e Alexandre de Moraes se manifestam

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Em seu perfil no X, Jair Bolsonaro disse que lamenta e repudia qualquer ato de violência.

"Apesar de configurar um fato isolado, e ao que tudo indica causado por perturbações na saúde mental da pessoa que, infelizmente, acabou falecendo, é um acontecimento que nos deve levar à reflexão", escreveu.

Na postagem, o ex-presidente afirma ainda que ‘passou da hora’ de o Brasil voltar a cultivar um ambiente adequado para que as diferentes ideias "possam se confrontar pacificamente".

"A defesa da democracia e da liberdade não será consequente enquanto não se restaurar no nosso país a possibilidade de diálogo entre todas as forças da nação", disse.

"E as instituições têm um papel fundamental na construção desse diálogo e desse ambiente de união. Por isso, apelo a todas as correntes políticas e aos líderes das instituições nacionais para que, neste momento de tragédia, deem os passos necessários para avançar na pacificação nacional."

Já o ministro Alexandre de Moraes afirmou que as explosões "não são um fato isolado", mas sim resultado do "extremismo" e do clima de ódio que se instalou no país.

"Não podemos ignorar o que ocorreu ontem. E o Ministério Público é uma instituição muito importante, vem fazendo um trabalho muito importante no combate a esse extremismo que lamentavelmente nasceu e cresceu no Brasil em tempos atuais. Nós precisamos continuar combatendo isso", disse o ministro ao abrir uma aula magna no Conselho Nacional do Ministério Público.

"O que ocorreu ontem não é um fato isolado do contexto. [...] O contexto é um contexto que se iniciou lá atrás, quando o famoso gabinete do ódio começou a destilar discurso de ódio contra as instituições, contra o Supremo Tribunal Federal, principalmente. Contra a autonomia do Judiciário, contra os ministros do Supremo e as famílias de cada ministro", completou Moraes.

O ministro deve assumir a relatoria das investigações sobre o ataque promovido por Wanderley Luiz, por ser o relator dos inquéritos que investigam as invasões de 8 de janeiro de 2023 ao STF, Planalto e Congresso Nacional.

Outras reações

Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça e Segurança Pública, afirmou que "a Polícia Federal está trabalhando com rigor para elucidar, com celeridade, a motivação das explosões na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal, e nos arredores do Congresso Nacional".

Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, lamentou o ocorrido e chamou a atenção para a necessidade "de garantir a segurança de parlamentares, servidores, colaboradores e visitantes, bem como a integridade do patrimônio público".

Já Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, manifestou "total repúdio a qualquer ato de violência".

Ibaneis Rocha (MDB), governador do DF que está de licença oficial, classificou o episódio como "grave" e garantiu que "todas as unidades de segurança e de inteligência do Governo do Distrito Federal estão orientadas a agir com rigor e celeridade para identificar o autor ou autores, bem como a motivação para esses ataques".

O STF divulgou uma nota sobre o ocorrido: "Ao final da sessão do STF desta quarta-feira (13), dois fortes estrondos foram ouvidos e os ministros foram retirados do prédio em segurança. Os servidores e colaboradores do edifício-sede foram retirados por medida de cautela. Mais informações sobre as investigações devem aguardar o desenrolar dos fatos. A Segurança do STF colabora com as autoridades policiais do DF."

Crescente preocupação com segurança do STF

Praça dos Três Poderes, em Brasília

Crédito, Agência Brasil

A segurança do STF tem sido uma preocupação frequentemente apontada pelo órgão e por seus ministros desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que em diversas ocasiões ameaçou descumprir decisões da corte e destratou ministros, em especial Alexandre de Moraes, que vem conduzindo inquéritos que têm como alvo propagadores de notícias falsas e milícias digitais.

Em protestos bolsonaristas, cartazes e manifestantes muitas vezes pediam o fechamento do STF.

Em 8 de janeiro de 2023, a situação culminou com a invasão e vandalização de prédios na Praça dos Três Poderes por parte de apoiadores de Bolsonaro, que havia sido derrotado na eleição do ano anterior. O STF foi um dos prédios mais destruídos nos ataques.

Moraes já tinha sido ameaçado de morte por pelo menos dois homens, que foram presos em 2021.

O ministro afirma também ter sido hostilizado junto com a família no aeroporto de Roma, na Itália, em 2023. Um casal e o genro, acusados de xingar Moraes, estão respondendo pelo caso na Justiça.

Em novembro de 2022, após a derrota de Bolsonaro nas eleições, o ministro Luís Roberto Barroso foi abordado de forma hostil por brasileiros nos Estados Unidos. A um deles, que questionava a confiabilidade do sistema eleitoral, Barroso respondeu com a frase "perdeu, mané, não amola", que ganhou as manchetes.

A Corte tem uma Secretaria de Segurança e policiais próprios, que atuam nas dependências do STF e acompanham os ministros em viagens ou em suas próprias casas. A segurança deles foi reforçada nos últimos anos.

"Até pouco tempo atrás, os ministros do Supremo Tribunal Federal circulavam em agendas pessoais e até institucionais inteiramente sós. Infelizmente, nos últimos anos, fomentou-se um tipo de agressividade e de hostilidade que passaram a exigir o reforço da segurança em todas as situações. As autoridades públicas de todos os poderes circulam com esse tipo de proteção seja em eventos privados, seja em eventos públicos", escreveu o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, em nota de junho.