Trump diz que pode negociar tarifa de 50% com Lula, mas 'não agora', e volta a elogiar Bolsonaro

Donald Trump

Crédito, Samuel Corum/Sipa/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, Trump falou nesta sexta-feira a jornalistas em Washington sobre possível conversa com Lula
Tempo de leitura: 6 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou nesta sexta-feira (11/7) que está disposto a conversar futuramente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre as tarifas de 50% impostas aos produtos brasileiros.

Em conversa com jornalistas em Washington, o presidente americano afirmou que isso deve ocorrer "em algum momento, não agora".

Trump também voltou a elogiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e afirmou que considera injusto o tratamento dado a ele.

Na declaração, Trump disse que Bolsonaro é "homem bom" e "honesto", além de destacar sua postura firme em negociações bilaterais.

"Eu o conheço bem, negociei com ele. Ele foi um negociador muito duro. Posso te dizer isso. Ele era um homem muito honesto e amava o povo do Brasil", disse Trump antes em embarcar para o Texas, onde enchentes deixaram 120 mortos.

O recado de Trump acontece dois dias após ele enviar carta a Lula anunciando que as exportações brasileiras sofrerão uma taxação adicional de 50% a partir do dia 1º de agosto.

Entre as justificativas para a medida, o presidente americano mencionou o processo judicial que investiga o ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Numa carta endereçada a Lula compartilhada nas redes sociais, Trump escreveu, em letras garrafais, que o julgamento contra seu aliado político deveria ser interrompido imediatamente.

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Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira, Lula disse que é "grave" a "intromissão de um presidente de um país no Poder Judiciário do meu país".

"É inaceitável que o presidente Trump mande uma carta pelo site dele e comece dizendo que é preciso acabar com a caça às bruxas. Isso é inadmissível", declarou Lula.

Perguntado sobre como pretende responder às taxas anunciadas por Trump, Lula pregou calma.

"Eu não tomo decisão com 39 ºC de febre. O Brasil utilizará a Lei da Reciprocidade quando necessário e o Brasil vai tentar, junto com a OMC [Organização Mundial do Comércio] e outros países, fazer com que a OMC tome uma posição para saber quem é que está certo ou que está errado", disse ele.

Sancionada pelo presidente brasileiro em abril, a Lei brasileira de Reciprocidade Econômica autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros.

Nesta sexta, Lula voltou a responsabilizar Bolsonaro pelas tarifas impostas pelos EUA, em um evento no interior do Espírito Santo.

Lula usou um boné azul com a frase "o Brasil é dos brasileiros", em contraposição ao boné vermelho Make America Great Again (Torne a América Grande Novamente) de Trump, e culpou o ex-presidente e seu filho Eduardo Bolsonaro pelo tarifaço.

"Aquela coisa covarde, que preparou um golpe nesse país, não teve coragem de fazer, está sendo processado, vai ser julgado... E ele mandou o filho dele para os Estados Unidos pedir para o Trump fazer ameaça: 'Ah, se não liberarem o Bolsonaro eu vou taxar vocês'", declarou Lula.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se licenciou do cargo e se mudou para os EUA em março dizendo que se dedicaria a convencer o governo Trump a atuar pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro no Brasil e para obter sanções ao ministro do STF Alexandre de Moraes.

Em nota assinada junto com o jornalista Paulo Figueiredo, o filho de Bolsonaro disse que "nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump — sempre com o objetivo de apresentar, com precisão, a realidade que o Brasil vive hoje".

Segundo Eduardo, a carta de Trump "confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade".

Lula com boné "O Brasil é dos brasileiros"

Crédito, Ricardo Stuckert/PR

Legenda da foto, Lula apareceu nesta sexta com boné dizendo "O Brasil é dos brasileiros"

Reação ao 'tarifaço'

Na carta, Trump também ameaça elevar ainda mais a tarifa sobre produtos brasileiros, se o país responder como uma tributação maior sobre importações americanas.

"Se por qualquer motivo você decidir aumentar suas tarifas, então qualquer que seja o número que você escolher para aumentá-las, ele será adicionado aos 50% que cobramos", diz a carta a Lula.

Após uma primeira tarifa de 10% ser adotada contra o Brasil em abril, momento em que a atuação do STF não foi citada como justificativa, o governo Lula disse que tentaria negociar a reversão da medida, sem descartar uma retaliação no futuro.

A primeira taxa foi considerada positiva para o país, já que, dentre as alíquotas extras aplicadas, esse foi o patamar mais baixo. Ainda assim, o governo brasileiro tinha esperança de reverter esse aumento por meio de negociações.

Porém, na segunda rodada do tarifaço, o Brasil aparece até agora com a maior taxa entre todos os países. Entre os já notificados, estão Japão e Coreia do Sul, ameaçados com uma tarifa extra de 25%

A decisão de Trump foi recebida com surpresa no Brasil e nos EUA. O economista americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia em 2008, disse que a carta "marca um novo rumo" das políticas tarifárias, descritas por ele como "megalomaníacas".

Os principais veículos da imprensa americana também repercutiram a carta. O jornal The Washington Post afirmou que o anúncio mostra como questões pessoais, e não simplesmente econômicas, norteiam o uso de tarifas comerciais por Trump.

Na quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores convocou duas vezes o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, para prestar esclarecimentos.

A convocação é uma medida séria em relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a outra nação.

A embaixadora Maria Luisa Escorel, secretária da América do Norte e Europa do Itamaraty, informou que o Brasil devolveria a carta, considerada por ela como ofensiva e contendo afirmações inverídicas e erros factuais.

Entre as possíveis medidas estudadas pelo governo brasileiro para reagir à nova taxa, estão diversificar parcerias comerciais, apostar no desgaste da oposição e, se tudo falhar, retaliar, disseram fontes do executivo à BBC News Brasil.

Balança comercial

Os EUA são o segundo principal destino das exportações totais brasileiras, atrás da China, e o principal destino das exportações brasileiras de produtos manufaturados.

A nova taxa representa um aumento significativo em relação aos 10% anunciados pelos EUA em 2 de abril.

Produtos como aço, petróleo, aeronaves, celulose, café, carne e suco de laranja estão entre as principais exportações brasileiras para os EUA, segundo dados do governo, e esses setores poderiam ser os mais afetados.

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) — entidade sediada no Brasil que reúne empresas brasileiras e americanas com atuação nos dois países — divulgou no mês passado que as exportações brasileiras para os EUA atingiram US$ 16,7 bilhões no acumulado dos primeiros cinco meses desse ano.

Issa representa um aumento de 5% em relação ao mesmo período de 2024 e estabelece um recorde para o período.

Já entre os produtos mais importados pelo Brasil dos EUA estão motores e máquinas não elétricos, óleos combustíveis e brutos de petróleo, aeronaves e gás natural.

Além de defender Bolsonaro, Trump apontou entre suas justificativas para as novas tarifas um suposto déficit comercial dos EUA com o Brasil. No entanto, dados oficiais do governo brasileiro mostram superávit para os EUA.

No último ano, o saldo da balança comercial entre Brasil e EUA ficou positivo para os americanos em cerca de US$ 300 milhões, com o país de Trump comprando US$ 40,4 bilhões em produtos do Brasil (12% das exportações brasileiras) e vendendo US$ 40,7 bilhões para cá (15,5% das importações do Brasil).

"As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovam um superávit desse país no comércio de bens e serviços com o Brasil da ordem de US$ 410 bilhões ao longo dos últimos 15 anos", disse Lula em nota logo após o anúncio de Trump.