Como afegã vítima de casamento infantil virou uma das melhores fisiculturistas da Europa

    • Author, Mahjooba Nowrouzi
    • Role, BBC News Afghan
  • Tempo de leitura: 5 min

Uma mulher de biquíni coberto de cristais brilha sob as luzes do palco.

A pele bronzeada e reluzente realça cada linha de seus músculos definidos, resultado de horas de treino intenso na academia.

A maquiagem impecável e o cabelo loiro iluminado de Roya Karimi não destoavam de uma final do Miss Universo.

É difícil imaginar que, há apenas 15 anos, ela era uma adolescente casada à força no Afeganistão, mãe ainda menina, antes de fugir em busca de uma nova vida.

Hoje, aos 30, ela está entre as principais fisiculturistas da Europa e se prepara para disputar, nesta semana, o Campeonato Mundial de Fisiculturismo. Ela começou a competir profissionalmente há menos de dois anos e sua ascensão foi meteórica.

Nada disso parecia possível quando Karimi fugiu do Afeganistão com a mãe e o filho pequeno. Na época, ela buscou refúgio na Noruega, onde reconstruiu a vida, retomou os estudos, formou-se em enfermagem e conheceu o atual marido, também fisiculturista.

O esporte, diz ela, a ajudou a romper barreiras sociais e psicológicas impostas durante anos.

"Cada vez que vou à academia, lembro que houve um tempo, no Afeganistão, em que eu nem podia me exercitar livremente", contou Karimi à BBC News Afeganistão.

A trajetória dela é marcada pela resistência a tradições restritivas, pela reconstrução da identidade e pela tentativa de inspirar outras mulheres afegãs que vivem sob forte repressão.

Algumas dessas restrições já existiam quando Karimi ainda morava no Afeganistão — fruto de normas sociais —, mas se agravaram desde 2021, com o retorno do Talebã ao poder.

Hoje, mulheres no país são proibidas de frequentar a escola após os 12 anos, exercer a maioria das profissões, viajar sozinhas por longas distâncias e até de falar alto em público.

"Eu tive sorte de conseguir sair daquela situação, mas muitas mulheres ainda não têm direitos humanos básicos, como o acesso à educação. É muito triste e devastador", diz Karimi.

Busca por outro futuro

Anos antes de o Talebã retomar o poder, Karimi já havia decidido que "não queria aquela vida".

A decisão de fugir em 2011, deixando o primeiro marido para trás, foi arriscada para uma mulher em uma sociedade tão conservadora. É um período de que ela não gosta de falar.

Na Noruega, Karimi encontrou um ambiente completamente diferente. Precisou se adaptar a uma cultura mais liberal, aprender o idioma e arrumar emprego para sustentar a família.

Os primeiros anos foram difíceis, mas o esforço compensou. Ela estudou enfermagem e passou a trabalhar em um hospital em Oslo.

Foi na academia que veio o novo ponto de virada. Treinar deixou de ser apenas exercício físico e passou a ser um meio de recuperar a autoestima e redefinir sua identidade.

Lá, conheceu o segundo marido, o também afegão Kamal Jalaluddin, experiente no fisiculturismo e um de seus principais apoiadores.

"Antes de conhecer Kamal, eu já praticava esportes, mas não em nível profissional", explicou.

"O apoio dele me deu coragem para seguir um caminho competitivo e quebrar tabus. Acredito que, quando um homem apoia uma mulher, coisas incríveis podem acontecer."

Ameaças e ofensas

Há um ano e meio, Karimi deixou a enfermagem para se dedicar totalmente ao fisiculturismo.

Foi uma decisão arriscada, mas, segundo ela, o principal desafio não foi a mudança de carreira, e sim aprender a lidar com a liberdade após anos de restrição.

"Nosso maior desafio foi romper os limites e moldes impostos por outros, regras não escritas justificadas em nome da tradição, da cultura ou da religião", disse. "Mas, quando você decide inovar, precisa se libertar dessas amarras."

A escolha também trouxe problemas.

Os biquínis, os cabelos soltos e a maquiagem pesada que ela usa nos palcos contrastam com as normas sociais — e agora também legais — que determinam como mulheres devem se vestir e se comportar em seu país natal.

Não surpreende que suas redes sociais sejam alvo de críticas e ameaças de violência e até de morte.

Ela ignora os comentários.

"As pessoas só veem minha aparência e o biquíni. Mas, por trás disso, há anos de sofrimento, esforço e perseverança. Essas conquistas não vieram facilmente."

Ainda assim, as redes são um canal que ela valoriza: permitem falar diretamente com mulheres afegãs sobre saúde física, autoconfiança e reconstrução da identidade.

No caminho do título mundial

Agora, Karimi se prepara para competir no campeonato da Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness (IFBB, na sigla em inglês), que começa nesta quinta-feira (13/11) em Barcelona, na Espanha.

Ela já conquistou ouro na categoria Wellness — voltada à boa forma natural, aparência saudável e beleza discreta — no torneio Stoperiet Open, em abril.

Em seguida, venceu o prestigiado Norway Classic 2025, que reúne atletas de toda a Escandinávia.

Essas vitórias a levaram ao Campeonato Europeu, que garantiu sua vaga no Mundial.

"Sinto uma felicidade e um orgulho profundos", disse ao se preparar para competir em Barcelona.

"Foi uma jornada incrivelmente difícil, mas, passo a passo, consegui conquistar medalhas de ouro pelo caminho."

Na plateia, o marido e o filho sempre a acompanham.

"Ver Karimi no palco é a realização de um sonho que construímos juntos", afirma Jalaluddin.

Mas, para ela, essa disputa representa algo maior.

"Eu me sinto mentalmente forte e totalmente pronta para dar o meu melhor, esperando fazer história e dedicar esse feito às meninas e mulheres afegãs, pela primeira vez."