A tragédia do incêndio em Hong Kong que deixou pelo menos 128 mortos: 'Dava para ver as chamas por dentro'

Prédios pegando fogo

Crédito, AFP via Getty Images

Tempo de leitura: 4 min

Pelo menos 128 pessoas morreram e centenas estão desaparecidas após um incêndio de grandes proporções atingir prédios de um condomínio no distrito de Tai Po, em Hong Kong, nesta quarta-feira (26/11).

Ao menos 79 pessoas ficaram feridas e 16 corpos permanecem dentro dos prédios. Dezenas estão hospitalizadas, muitas delas em estado crítico.

Acredita-se que cerca de 300 pessoas ainda estão desaparecidas.

Equipes de resgate esperam concluir na manhã desta sexta-feira (28, em horário local) as operações de busca por vítimas que ainda possam estar dentro dos apartamentos.

Ainda há chamas, mas as autoridades dizem que o fogo está quase totalmente contido.

Entre as vítimas da tragédia está um bombeiro de 37 anos, que morreu enquanto combatia as chamas. O governo o descreveu como "dedicado e corajoso".

O incêndio foi classificado como nível cinco, o mais grave em Hong Kong.

A última vez que um incêndio deste nível atingiu o território — uma região administrativa especial da China — foi em 2008, quando o Cornwall Court, no distrito comercial de Mong Kok, pegou fogo.

O incêndio tornou-se o mais mortal de Hong Kong em quase 80 anos, ultrapassando o número de vítimas em 1962 no distrito de Sham Shui Po, que teve 44 mortes.

Mais de 800 bombeiros foram mobilizados para tentar apagar o fogo no condomínio de Wang Fulk Court.

O fogo começou às 14h51 de quarta-feira no horário de Hong Kong (madrugada no Brasil).

Vários moradores relataram que os alarmes de incêndio não dispararam.

Centenas de apartamentos foram evacuados e os moradores levados para abrigos temporários e unidades habitacionais de emergência.

Legenda do vídeo, Vídeo: Chamas tomam conta de prédios em Hong Kong

Um bebê e uma mulher idosa foram resgatados dos prédios no início da noite de quarta, quando o local já estava em chamas.

Uma investigação sobre as causas do incêndio está em andamento. Segundo as autoridades, a velocidade com que o fogo se alastrou foi "incomum".

Acredita-se que andaimes de bambu cercando o condomínio, que estava em reforma, podem ter contribuído para que as chamas tenham se espalhado.

A polícia afirma que placas de poliestireno foram encontradas bloqueando janelas no local, o que também pode ter contribuído para que o fogo se alastrasse mais rapidamente.

Três pessoas foram presas sob suspeita de homicídio culposo: dois diretores de uma construtora e um consultor de engenharia.

Edifícios com chamas e fumaça

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Chamas engoliram blocos de condomínio
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O Wang Fuk Court é um condomínio composto por oito torres, cada uma com 31 andares. Elas foram construídas em 1983.

Segundo o censo governamental de 2021, elas oferecem 1.984 apartamentos para cerca de 4.600 residentes.

Andaimes de bambu são usados em Hong Kong há séculos, pois o bambu cresce rapidamente, é leve e muito resistente.

Muitos o consideram um ícone da paisagem urbana de Hong Kong — um dos últimos lugares no mundo a utilizá-lo na construção moderna.

Em março, a mídia local noticiou que o Departamento de Desenvolvimento do governo vinha tentando eliminar gradualmente o uso de bambu por questões de segurança.

A pressão para substituir o bambu por metal surgiu após uma série de mortes relacionadas a andaimes em Hong Kong.

Os andaimes de bambu apresentam "fragilidades intrínsecas, como variação nas propriedades mecânicas, deterioração ao longo do tempo e alta combustibilidade, etc., o que gera preocupações com a segurança", afirmou o porta-voz do departamento, Terence Lam.

Fogo se espalhou 'num piscar de olhos'

A imprensa local relatou que explosões foram ouvidas dentro dos prédios e que as mangueiras de incêndio não conseguiam alcançar facilmente os andares superiores.

Harry Cheung, que mora no bloco dois do complexo Wang Fuk Court há mais de 40 anos, contou à Reuters que ouviu "um barulho muito alto" por volta das 14h45 e viu o fogo em um bloco próximo.

"Imediatamente voltei para arrumar minhas coisas", disse o idoso de 66 anos.

"Eu nem sei como me sinto agora. Só estou pensando em onde vou dormir esta noite, porque provavelmente não vou conseguir voltar para casa."

Já Jason Kong, que mora no bloco um do complexo, tentou entrar no prédio para resgatar seu cachorro quando o incêndio começou a se espalhar, mas foi impedido pela polícia.

À agência Reuters, ele disse que o avanço do incêndio o surpreendeu.

"Recebi uma mensagem por volta das 15h de que o telhado estava em chamas. Depois, começou a se espalhar muito rápido. Espalhou-se num piscar de olhos. Eu moro no bloco um. Achei que o fogo do bloco três não se propagaria tão depressa", disse.

"Estou devastado. Tenho tantos vizinhos e amigos. Não sei mais o que está acontecendo… Como vamos lidar com isso?"

Várias pessoas sentadas em um espaço

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Centenas de moradores do condomínio foram levados para um abrigo

A equipe da BBC na China, presente no local, disse que o cheiro de fumaça podia ser sentido a 500 metros de distância do condomínio.

Os repórteres também conversaram com pessoas afetadas pelo incêndio.

Mui Siu-fung, vereador do distrito de Tai Po, disse ter visto o fogo no bloco onde tudo começou.

"Dava para ver as chamas por dentro, pelas janelas", afirmou.

O estudante Tomas Liu, que passava pelo local, disse ter se assustado com a quantidade de fumaça, que perdurou por horas.

"Quando você se aproxima, o calor aumenta e você consegue senti-lo, e a fumaça é muito densa. É um desastre", disse.