Friederich Merz na Alemanha: as 3 crises à espera do novo chanceler

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O líder conservador da Alemanha, Friedrich Merz, venceu a votação no Parlamento para se tornar o próximo chanceler da Alemanha, após uma segunda tentativa.

Na primeira votação, também realizada nesta terça-feira (06/05), o líder conservador ficou inesperadamente aquém dos números necessários para formar uma maioria no parlamento.

Merz precisava de 316 votos no Bundestag de um total de 630 assentos, mas só conseguiu 310, em um golpe significativo para o líder do partido de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU), dois meses e meio após a legenda vencer as eleições da Alemanha.

Como a votação foi secreta, não se sabe quem deixou de apoiá-lo — se deputados da sua própria bancada conservadora ou do partido aliado de centro-esquerda.

Sua coalizão com a centro-esquerda tem assentos suficientes no Parlamento para formar um governo, mas aparentemente 18 deputados que se esperava que o apoiassem não concordaram.

O fracasso de Merz na primeira votação foi visto como algo sem precedentes na história moderna da Alemanha.

Após horas de incerteza, os partidos e a presidência do Parlamento concordaram em realizar uma segunda votação, na qual Merz obteve 325 votos — 9 além dos 316 necessários.

Segundo a Constituição da Alemanha, não há limite para o número de votações que podem ser realizadas, mas, em última instância, se não for alcançada uma maioria absoluta, um candidato pode ser eleito com maioria simples.

Nenhum candidato a chanceler havia perdido uma votação no Bundestag desde a restauração da democracia em 1949, e o clima no Parlamento, após o resultado, foi de confusão.

Aos 69 anos, Merz será agora empossado pelo presidente Frank-Walter Steinmeier, e sua equipe de 17 ministros assumirá os cargos.

A presidente do Bundestag, Julia Klöckner, havia cogitado remarcar a nova votação para quarta-feira, mas o secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann, afirmou que era essencial seguir em frente:

"A Europa precisa de uma Alemanha forte. Por isso, não podemos esperar dias", disse Klöckner à TV alemã.

O líder da bancada parlamentar, Jens Spahn, também fez um apelo ao senso de responsabilidade dos colegas: "Toda a Europa, talvez o mundo inteiro, está observando essa votação".

Analistas políticos classificaram a derrota inicial como uma humilhação, provavelmente causada por alguns membros insatisfeitos do Partido Social-Democrata (SPD), que assinou o acordo de coalizão com os conservadores na segunda-feira (5/5).

A presidente do Parlamento informou que, na primeira votação, nove deputados estavam ausentes, três se abstiveram e uma cédula foi considerada inválida.

Nem todos no SPD estavam satisfeitos com o acordo de coalizão, mas líderes da legenda asseguraram o compromisso do partido.

"Foi uma votação secreta, então ninguém sabe", disse à BBC o deputado Ralf Stegner, do SPD.

"Mas posso dizer que não tenho a menor impressão de que nossa bancada não estivesse ciente da responsabilidade que temos."

A legenda de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD), que ficou em segundo lugar nas eleições de fevereiro com 20,8% dos votos, aproveitou a derrota de Merz para pedir novas eleições.

A copresidente da sigla, Alice Weidel, escreveu na rede X que o resultado evidenciava "a base fraca sobre a qual foi construída a pequena coalizão entre conservadores e SPD, rejeitada pelos eleitores".

O deputado Johann Wadephul, aliado conservador e escolhido por Merz para o cargo de ministro das Relações Exteriores, disse à BBC que a derrota inicial foi "um obstáculo, mas não uma catástrofe".

A transição de governo na Alemanha é cuidadosamente coreografada. Na véspera da votação, o então chanceler Olaf Scholz foi homenageado com a tradicional cerimônia militar do Großer Zapfenstreich, realizada por uma orquestra das Forças Armadas.

Era amplamente esperado que Merz vencesse a primeira rodada da votação, realizando seu antigo desejo de se tornar chanceler.

Sua rival e ex-chanceler Angela Merkel chegou a comparecer ao Bundestag para assistir à votação, mas não estava presente na segunda rodada.

Correspondentes políticos no Parlamento disseram que o resultado inesperado revelou que, mesmo que a coalizão assuma, há sinais de possíveis tensões internas.

O deputado da AfD Bernd Baumann criticou o acordo entre CDU e SPD: "A CDU prometeu uma série de políticas semelhantes às nossas, como limitar a migração, e depois se aliou ao centro-esquerda. Isso não funciona. Isso não é democracia", disse.

"Isso não é bom", alertou a política verde Katrin Göring-Eckardt. "Mesmo que eu não queira esse chanceler ou o apoie, só posso advertir contra quem comemora o caos."

Menos de 24 horas antes, o discurso era outro: uma Alemanha sob um governo estável, encerrando seis meses de paralisia política.

"É nosso dever histórico fazer este governo dar certo", afirmou Merz ao assinar o acordo de coalizão.

Apesar da maioria estreita de 12 cadeiras, o acordo entre conservadores e social-democratas foi visto como mais estável que a chamada "coalizão semáforo" de três partidos, que ruiu em novembro passado por divergências sobre gastos públicos.

O SPD, que era o maior partido da antiga coalizão, teve seu pior resultado eleitoral desde a Segunda Guerra, ficando em terceiro lugar. Merz prometeu recolocar a Alemanha no centro das decisões globais e reanimar a economia enfraquecida.

Após dois anos de recessão, a maior economia da Europa cresceu nos primeiros três meses de 2025. Mas economistas alertam para riscos às exportações alemãs, devido a tarifas impostas pelos Estados Unidos.

O setor de serviços do país encolheu no mês passado, impactado pela demanda mais fraca e pela redução no consumo das famílias.

Com sua economia estancada, um contexto internacional cada vez mais hostil devido às mudanças da política externa americana no governo Donald Trump e o auge da direita radical no país, a grande incógnita agora é Merz será capaz de formar um governo suficientemente estável para realizar as reformas necessárias.

Abaixo os principais desafios à espera de Merz.

1. Relação conflituosa com os Estados Unidos

A volta de Donald Trump à presidência americana trouxe mudanças radicais para a política externa dos Estados Unidos. Estas mudanças obrigaram a Alemanha e os demais membros europeus da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a repensar rapidamente suas posições.

Trump é muito crítico com seus aliados europeus. Ele os acusa de não gastarem o suficiente com a defesa e de abusar da proteção militar dos Estados Unidos há décadas.

No poder desde janeiro deste ano, o presidente americano fez tremer o solo que sustentava a Alemanha, com sua decisão de iniciar negociações sobre a Ucrânia diretamente com a Rússia de Vladimir Putin, excluindo os aliados europeus.

Trump também deixou claro que nem a Alemanha, nem os demais países da União Europeia podem contar com a garantia de que os Estados Unidos irão acudir em sua ajuda, no caso de ataques ao seu território.

O vice-presidente americano, J. D. Vance, discursou em Munique, na Alemanha, no dia 14 de fevereiro. Ele lançou duros ataques aos líderes europeus e causou perplexidade entre os alemães. O ministro da Defesa do país, Boris Pistorius, qualificou o discurso de "inaceitável".

Karl-Heinz Kamp, da Academia Federal Alemã para Políticas de Segurança, declarou à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) que "o modelo segundo o qual os americanos forneciam a segurança — com a Alemanha podendo se dedicar a crescer e prosperar — terminou" com o segundo mandato de Donald Trump.

Em um país que passou décadas entre governos muito reticentes para investir no seu exército, devido às traumáticas recordações da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e do militarismo nazista, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 obrigou os políticos e a população da Alemanha a repensarem sua posição.

Nos últimos anos, a Alemanha aumentou seus gastos em defesa e o governo de Scholz rompeu décadas de tradição pacifista em 2022, ao aprovar o envio de armamento letal à Ucrânia para repelir a invasão russa. Esta mudança histórica foi bem recebida pelos cidadãos alemães, segundo as pesquisas.

Merz destacou que esta "foi uma mudança fundamental na política alemã, mas que logo foi interrompida". Para ele, "o próximo chanceler precisará se aprofundar nela e levá-la para o próximo patamar".

O grande problema é que a Alemanha se vê obrigada a investir mais em defesa em um momento ruim para sua economia.

Os gastos sociais e o financiamento dos generosos serviços públicos, tradicionalmente, são prioritários no país.

Mas as ameaças de um mundo em que as garantias de segurança dos Estados Unidos e da Otan estão sendo questionadas podem obrigar os alemães a tomar dolorosas decisões orçamentárias, se o próximo governo não conseguir reativar o crescimento econômico.

2. Indústria defasada e economia estancada

A Alemanha ostentou com orgulho, por muitos anos, o título de "locomotiva da Europa".

A imprensa internacional usava este rótulo com frequência para destacar a liderança do país, que impulsionava o crescimento econômico da União Europeia.

Incentivada pela sua indústria e pela energia barata que vinha da Rússia, a Alemanha crescia de forma dinâmica. O país gerava empregos, principalmente graças à exportação de carros e outros produtos de alto valor agregado, destinados aos parceiros europeus e aos enormes mercados dos Estados Unidos e da China.

Mas este crescimento ficou estancado nos últimos anos. O Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha foi reduzido em 0,3% ao ano em 2023 e, segundo as estimativas, 0,1% em 2024.

As previsões da Comissão Europeia indicam que o crescimento alemão irá se recuperar lentamente. Neste ano, o aumento não deve superar 0,7%.

A guerra na Ucrânia e a aberta rivalidade entre a União Europeia e Vladimir Putin encareceram o gás e o petróleo da Rússia, que alimentavam os lares e as fábricas alemãs. Isso contribuiu para o aumento da inflação, que é uma das questões que mais vêm preocupando a população do país.

Atualmente, a Espanha – que é muito menos dependente dos gasodutos que ligam a Rússia à Europa ocidental – ultrapassou a Alemanha como o país que mais cresce na União Europeia.

3. A imigração e o auge da direita radical

Em 2015, a então chanceler Angela Merkel decidiu abrir as portas da Alemanha para os refugiados da guerra na Síria, enquanto seus vizinhos europeus fechavam suas fronteiras com soldados e cercas de arame.

Imigrantes de outros países também se instalaram na Alemanha. Mais de 2 milhões de pessoas chegaram ao país naquele ano.

A população não deixou de crescer nos últimos anos devido à imigração, o que ajudou a compensar a redução da natalidade e o envelhecimento entre os cidadãos alemães.

Mas a imigração em massa também trouxe consigo problemas de integração. E alguns ataques cometidos por solicitantes de asilo muçulmanos causaram consternação no país.

O posicionamento favorável dos alemães frente à imigração aparentemente oscilou nos últimos anos.

Em 2016, o Índice de Aceitação da Imigração na Alemanha era de 7,1, segundo o instituto de pesquisas Gallup. Mas, em 2023, este índice caiu para 6,4.

O Gallup indica que a Alemanha é a única dentre as principais economias europeias em que a aceitação dos imigrantes é significativamente inferior à de 2016.

Tudo isso fortaleceu a ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve nestas eleições a melhor votação da sua história — e com o apoio do bilionário americano Elon Musk, forte aliado de Trump.

Depois de atingir várias esferas de poder local e regional nas últimas eleições, a AfD se transformou em uma força de referência nacional. Seu discurso anti-imigração obrigou outros partidos a também adotar um tom mais duro.

Os demais partidos continuam aplicando o veto à direita radical – um dos consensos da política alemã há décadas, devido à aversão do país a qualquer vislumbre de reedição do trauma do nazismo. Por isso, parece improvável que a AfD venha a fazer parte da futura coalizão de governo.

Com informações de Paul Kirby e Jessica Parker, da BBC News, e Guillermo D. Olmo, da BBC News Mundo